Os Mortos de Sobrecasaca

"Havia a um canto da sala um álbum de fotografias intoleráveis, alto de muitos metros e velho de infinitos minutos, em que todos se debruçavam na alegria de zombar dos mortos de sobrecasaca. Um verme principiou a roer as sobrecasacas indiferentes e roeu as páginas, as dedicatórias e mesmo a poeira dos retratos. Só não roeu o imortal soluço de vida que rebentava, que rebentava daquelas páginas."

Carlos Drummond de Andrade, Os Mortos de Sobrecasaca (Sentimento do mundo, 1940)

terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

O Fotógrafo do Imperador

O imperador...

Imperador do Brasil, D. Pedro II, c. 1866
In Arquivo Fundação Biblioteca Nacional, Coleção D. Thereza Christina Maria, Brasil.

E o fotógrafo...

Joaquim José Pacheco ou Joaquim Insley Pacheco retratado como pintor.
A história começa com um nome, ou melhor, um nome artístico... Insley Pacheco, fotógrafo e pintor, desconhecido para muitos e famoso para alguns, mas se falarmos em Fotografia e D. Pedro II, imperador do Brasil, chegamos lá... Ao "Fotógrafo do Imperador"!

O que muitos também não sabem, principalmente em Portugal, é que era português, vindo das recônditas Terras de Basto, contemporâneo, homónimo e conterrâneo do meu trisavô Joaquim José, o "Manco"... Vindo das agrestes serranias de Cabeceiras de Basto!

Joaquim José Pacheco, nome de batismo, nasce em Cancela, Refojos de Basto, a 31 de março de 1830, ano certamente difícil, em plena guerra civil que opôs Liberais e Absolutistas, e dois irmãos D. Pedro e D. Miguel. E é nesta conjuntura complicada entre as Lutas Liberais e o pós-guerra, com todas as dificuldades inerentes decorridas de 6 anos de devastação, que cresce Pacheco!

Era filho de José António Pacheco e Maria Antónia da Conceição, ambos do lugar de Cancela, tal como os avós paternos Francisco José Pacheco e Teresa Maria de Ataíde. Possivelmente a sua mãe seria exposta, ou seja teria sido abandonada em criança, pois os seus pais eram desconhecidos.

Pacheco era o mais novo de três irmãos, Bernardo nascido em 1824 e Joaquina nascida em 1827. Ficaram órfãos de pai em 1835 e da mãe em 1839. Dois tios tomaram conta deles, Ana Joaquina e Francisco José. Eram muitas bocas para alimentar, pois só primos eram 10!

E mais nada... Nada mais se sabe da sua infância, da sua família e da vida que levava em Cabeceiras de Basto! Nada!

Na verdade, pode-se dizer que a história da sua vida começa em finais de 1843, com 13 anos quando faz a viagem! A longa viagem para o Brasil, de quase dois meses num barco à vela, ainda antes de surgir o famoso vapor! Teria ido para a vida comercial para se juntar ao seu irmão mais velho Bernando, que teria partido em 1837! No mesmo ano de 1843 a sua irmã Joaquina parte também para o Brasil. Viajemos então até ao Brasil imperial, para Pernambuco.

Daguerreótipo tirado por Pacheco em 1850.
Jovem desconhecido.
In arquivo Museu Histórico Nacional, Brasil.
Pacheco ao chegar aquelas terras desconhecidas começou a trabalhar como mascate ou caixeiro viajante, deixando Pernambuco em finais da década de 1840 para ir para Fortaleza, no Ceará.

Na nova cidade começou a trabalhar para um mágico irlandês, que também era fotógrafo. Frederick Walter era o seu nome e deve ter sido por causa dele que Pacheco ganhou o "bichinho" da fotografia e da pintura, ao pintar os cenários para os retratos! Em 1849 já se anunciava como retratista, possuindo uma máquina vinda dos Estados Unidos para tirar retratos daguerreótipos, uma nova técnica que havia chegado em 1840 ao Brasil, inventada pelo francês Louis Daguerre!

Mas Pacheco era ambicioso e ávido de conhecimento! É então que o jovem Cabeceirense parte para Nova Iorque para trabalhar e aprender com os melhores!

Nos Estados Unidos já se havia dado grandes avanços nesta nova técnica da daguerreotipia. Pacheco conseguiu trabalho como aprendiz de Mathew Brady, um conhecido fotógrafo com estabelecimento na Broadway e famoso pelos seus retratos, incluindo os do então presidente dos Estados Unidos, e por ter participado pioneiramente nas coberturas fotográficas da Guerra da Secessão. Pode-se dizer que terá sido os primórdios do foto-jornalismo! Pacheco sabia escolher... E escolheu mais dois professores, Jeremiah Gurney e Henry E. Insley, este último seu grande mentor e mestre, ao qual foi buscar o seu nome artístico.

D. Pedro II com 22 anos de idade.
Rio de Janeiro, 1848.
Em 1851 Pacheco volta para o Brasil instalando-se por poucos anos no Recife onde abre um estúdio de fotografia.

Mas 4 anos depois resolve mudar-se para onde tudo acontecia, a capital do império, o Rio de Janeiro! Era lá que iria ter sucesso! Era lá que estava a corte e também o imperador! Pacheco sabia que o então jovem imperador D. Pedro II era um apaixonado pela "novidade do século", a fotografia! Aliás a ele se devem as primeiras experiências e retratos, quando apenas tinha 15 anos, sendo por isso considerado o primeiro fotógrafo do Brasil! Pacheco tinha de conseguir aproximar-se do imperador-fotógrafo!

Adotou então o nome de Joaquim Insley Pacheco, aludindo ao seu antigo mentor, nome mais internacional e que faria certamente bem mais sucesso.

Fotografia tirada por Insley Pacheco.
D. Pedro II in Arquivo da Fundação da Biblioteca
Nacional, Coleção D. Thereza Christina Maria, Brasil.
E claro escolheu o melhor lugar para o seu novo estúdio fotográfico, o lugar mais central, mais bem frequentado, com as melhores lojas e cafés, onde todas as modas e novidades se concentravam naquela época, a rua do Ouvidor! Primeiro no número 31 e posteriormente alargando-se a outros edifícios!

O "isco" estava lançado! Rapidamente chegou aos ouvidos do imperador que havia um novo fotógrafo, um português de Cabeceiras de Basto com um estranho nome anglo-saxónico! Insley Pacheco para além de ter um forte espírito empreendedor e comercial era um verdadeiro diplomata e rapidamente chegou à corte, conseguindo mover-se nas mais altas esferas até ser apresentado ao imperador! A paixão da fotografia consegue uni-los e Insley Pacheco recebe do monarca o título de "Fotógrafo da Casa Imperial" em dezembro de 1855, tornando-se assim o 2º a receber a distinção. D. Pedro II, muito à frente do seu tempo, foi pioneiro no patrocínio a um fotógrafo numa altura que ainda nem a poderosa rainha Vitória de Inglaterra o tinha dado a nenhum súbdito. Na década seguinte recebe o título de "Hábito de Cavaleiro da Real Ordem de Cristo de Portugal".

A presença e proximidade com o imperador e por arrasto toda a família imperial trouxe-lhe o mais alto prestígio e o desejo da alta sociedade de ser fotografada pelo mais recente "Fotógrafo do Imperador"!
Fotografia Insley Pacheco,
Carte de visite de José Lustrosa da Cunha,
Barão de Santa Filomena
In Arquivo Museu Imperial de Petrópolis, Brasil.

Fotografia Insley Pacheco - Barões de Sertório
In Arquivo Museu Imperial de Petrópolis, Brasil.
Fotografia Insley Pacheco,
Franklin Américo de Meneses,
Barão de Loreto, 1880.
In Arquivo Museu Imperial de Petrópolis,
Coleção Pedro Paranaguá, Brasil.









Fotografia Insley Pacheco,
João Caldas Viana Filho,
Visconde de Pirapetinga.
In Arquivo Museu Imperial de Petrópolis,
Brasil.

Esta sua proximidade valeu-lhe também de ser chamado de "fotógrafo aristocrata"! Ótimo para conseguir clientela, ótimo para ganhar cada vez mais avultados lucros no mais famoso estúdio fotográfico da altura!
Retrato Insley Pacheco,
Princesas Leopoldina e Isabel, 1855, Ambrótipo
In Arquivo Fundação Maria Luísa e Óscar Americano,
Brasil.

E os retratos sucediam-se... A família imperial deslocava-se frequentemente ao seu estúdio para ser fotografada, umas vezes a imperatriz D. Teresa Cristina, outras vezes as princesas Isabel e Leopoldina. Na verdade, as princesas cresceram a posarem para Insley Pacheco, as muitas fotografias assim o mostram, principalmente da princesa Isabel, a mais velha e herdeira do trono, lugar que chegou a ocupar como regente, durante as viagens de seu pai, e que ficou famosa por assinar a Lei Áurea que aboliu a escravatura no Brasil, em 1888. 

Insley Pacheco deve ter sido o fotógrafo que mais fotografou a família imperial e as suas fotografias são talvez das mais conhecidas e famosas.

Retrato Insley Pacheco,
Família imperial, 1865
In Arquivo Museu Imperial
de Petrópolis, Brasil.
Retrato Insley Pacheco,
Família imperial, 1868
In Arquivo Museu Imperial
de Petrópolis, Brasil.
Numa época em que a fotografia estava na moda e a moda era feita pelos monarcas, todos queriam imitar as poses, os cenários, as roupas, tudo o que Insley Pacheco usava para fotografar os seus "reais clientes". Os muitos anos que acompanhou a família real trouxe-lhe certamente algum à vontade e informalismo nas relações que tinha quer com o imperador, quer com a restante família! As fotografias de Insley Pacheco não enganam e as poses muitas vezes informais, ao contrário do que era suposto, são disso prova!


Retrato Insley Pacheco,
Princesa Leopoldina, 1868
Platinotipia
In Arquivo Museu Imperial de Petrópolis,
Brasil.
Retrato Insley Pacheco,
Imperatriz D. Teresa Cristina Maria, 187?
In Arquivo Fundação Biblioteca Nacional,
Coleção D. Thereza Christina Maria, Brasil.



Retrato Insley Pacheco
Princesa Isabel, 1864
In Arquivo Museu Imperial de Petrópolis,
Brasil.
Retrato Insley Pacheco,
Conde d'Eu, marido da princesa Isabel, 1865
In Arquivo Museu Imperial de Petrópolis
Coleção Pedro Paranaguá,
Brasil.
























Retrato Insley Pacheco,
Imperador e a imperatriz ladeados pelas filhas,
as princesas Leopoldina e Isabel, 1864.
Retrato Insley Pacheco- Princesa Isabel, 1865
In Arquivo Fundação Biblioteca Nacional,
Coleção D. Thereza Christina Maria, Brasil.























Insley Pacheco ajudou a delinear a imagem oficial de D. Pedro II, segundo as suas pretensões, mais associado ao estereótipo do burguês capitalista. Tal como hoje em dia no marketing, tudo era preparado e pensado, o traje, as posições, o cenário, mas na verdade era assim que o imperador se via, como um homem descontraído, ligado à cultura, ao pensamento...

Retrato Insley Pacheco - D. Pedro II com a filha, a princesa Isabel,  c. 1865.

Interessante ideia a dos dois retratos feitos por Insley Pacheco de D. Pedro II e sua mulher D. Teresa Cristina Maria, pensados como um conjunto para serem disposto lado a lado, apresentando-se como pessoas modernas, o imperador a segurar um livro dando a ideia de pessoa culta, ligada às letras, mas com um cenário de estúdio recriando uma floresta tropical brasileira. Aliás o exotismo estava completamente na moda, portanto nada melhor para passar a imagem do imperador culto, de índole europeia, em pleno cenário tropical!

Retrato Insley Pacheco,
D. Teresa Cristina Maria, Platinotipia, 1883
In Arquivo Fundação Biblioteca Nacional,
Coleção D. Thereza Christina Maria,
Brasil.
Retrato Insley Pacheco,
D. Pedro II, Platinotipia, 1883
In Arquivo Fundação Biblioteca Nacional,
Coleção D. Thereza Christina Maria,
Brasil.























A fama e prestígio de Insley Pacheco trouxe-lhe total mobilidade na corte, sendo frequentemente chamado para festas e saraus, chegando até a participar em algumas peças de teatro feitas nesses eventos, como foi o caso de uma peça de Machado de Assis, escrita de propósito para o momento. E obviamente todas as pessoas que iam a essas festas mais cedo ou mais tarde também se colocavam à frente da ambicionada câmara fotográfica!

O Insley cabeceirense, sempre atento às novidades, soube também aproveitar uma grande moda... A fotopintura! Esta técnica de pintar fotografias alcançou uma enorme popularidade, destronando os retratos a óleo que exigiam longas e fastidiosas sessões de poses, além de serem muito mais dispendiosos! E claro está que a o imperador aderiu logo à moda da cor!

Fotografia da autoria de Joaquim Insley Pacheco,
Quinta da Boa Vista, Palácio Imperial de São Cristóvão,
Rio de Janeiro, 1878/1889
In Arquivo Fundação Biblioteca Nacional
Coleção D. Thereza Christina Maria, Brasil.
Mas a outra paixão de Insley Pacheco não foi menos importante... A Pintura! Além da pintura de cenários e de fotografias ele gostava também de pintar paisagens, de captar a natureza através do pincel!

As paisagens, preferência na sua pintura, foram muito raras nas suas fotografias, sendo conhecidos apenas alguns exemplos ligados, claro está, ao imperador, como é o caso da Quinta da Boa Vista onde se situa o Palácio Imperial de São Cristóvão.
Pintura de Joaquim Insley Pacheco,
Pedra de Itapuca, Icarai, Niterói, com o Rio de Janeiro ao fundo.

Como sempre, procurou aprender com os melhores e o seu grande mentor nesta área foi o conhecido pintor Arsénio Cintra da Silva.

Pintura de Joaquim Insley Pacheco,
Baía do Rio de Janeiro, c. 1872, têmpera e aquarela sobre papel,
In Sociedade Brasileira de Cultura Inglesa.
Mas a sua paixão e sucesso pela pintura não lhe trouxe o narcisismo e o egoísmo que muitas vezes vêm com a fama! Procurou promover e divulgar não só a sua arte mas também dando oportunidade a outros pintores de a mostrar na sua galeria da rua do Ouvidor. Sim, também tinha uma galeria de pintura, onde mostrava as suas obras e as dos seus amigos pintores. E era concorrida! E o sucesso tinha de estar também ligado à amizade de Insley com o imperador!

Notícia da exposição de pintura de
Arsénio da Silva, realizada na galeria
Insley Pacheco que obteve a visita de
D. Pedro II.
Revista Illustrada, 1883.
D. Pedro II também tinha a paixão da pintura, como não podia deixar de ser num homem de cultura excepcional e frequentava assiduamente a galeria do seu amigo Insley para poder admirar as mais recentes obras de pintura. Estas visitas eram notícia e destaque na imprensa da época e tal como na fotografia, todos os artistas ambicionavam expor na galeria Insley Pacheco para serem admirados e sonharem com criticas positivas do imperador.

Muitas foram as exposições fotográficas e de pintura da autoria de Insley, algumas na Academia Imperial de Belas Artes outras internacionais que lhe trouxeram vários prémios e reconhecimentos. Uma das largamente anunciada por ele foi em Portugal, em 1865, na famosa Exposição Internacional do Porto, no Palácio de Cristal, onde expôs 4 pinturas a óleo e várias fotografias que lhe valeram uma medalha de 1ª Classe .
Antigo Palácio de Cristal da cidade do Porto, construído para a Exposição Internacional do Porto, em 1865.
Mas a 15 de novembro de 1889 tudo muda! É implantada a República no Brasil e o imperador e toda a sua família são obrigados a partir para o exílio. O grande apoio de Insley Pacheco desaparece! No entanto o seu prestígio não! A sua atividade como fotógrafo e pintor continua a todo o vapor e ele sabe que para isso tem de "apagar" a sua ligação com o imperador e com os ideais monárquicos que ele representava. A força das circunstâncias assim o impunha! Desaparece o titulo "Fotógrafo da Casa Imperial", as esfinges do imperador nos seus anúncios e todos os símbolos que o ligavam fortemente ao seu "protetor". Não teria sido mal agradecido certamente, mas há que saber viver e ultrapassar as circunstâncias para vencer. Adaptação para evoluir e sobreviver, já defendia Charles Darwin!

Anos mais tarde, numa nova época, e já num novo século, a luz extingue-se para Joaquim Insley Pacheco. Não a luz imprescindível para a fotografia, mas a luz da sua vida! No dia 12 de outubro de 1912 morre no Rio de Janeiro, longe da sua terra natal, Cabeceiras de Basto. Demasiado longe...

A imprensa brasileira da época lembra-o desta forma: "Pouco depois da meia noite de hoje, recebíamos a notícia da morte de um dos artistas mais queridos desta cidade. O velho Insley Pacheco, cujo atelier fotográfico foi durante largos anos, o primeiro do nosso país, deixou ontem de existir..."









2 comentários:

  1. Fico muito feliz como Cabeceirense e amador em foto-reportagem!
    Ainda não li tudo … mas desde de já os meus agradecimentos a quem permitiu que esta informação chegasse até mim.

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