Os Mortos de Sobrecasaca

"Havia a um canto da sala um álbum de fotografias intoleráveis, alto de muitos metros e velho de infinitos minutos, em que todos se debruçavam na alegria de zombar dos mortos de sobrecasaca. Um verme principiou a roer as sobrecasacas indiferentes e roeu as páginas, as dedicatórias e mesmo a poeira dos retratos. Só não roeu o imortal soluço de vida que rebentava, que rebentava daquelas páginas."

Carlos Drummond de Andrade, Os Mortos de Sobrecasaca (Sentimento do mundo, 1940)

quarta-feira, 9 de março de 2016

"Entre as brumas da memória (...) Dos teus egrégios avós..." - De Paço de Vides ao Palácio de Belém

O título desta história começa com dois pequenos trechos de um dos símbolos nacionais de Portugal e da República... O Hino Nacional! A letra de Henrique Lopes de Mendonça assenta que nem uma luva para começar a falar do Passado e dos ilustres "avós" do novo Presidente da República, o Prof. Marcelo Nuno Duarte Rebelo de Sousa.

E pelas brumas da memória recuamos mais de 150 anos até ao lugar do Paço, também chamado de Paço de Vides, em Pedraça, Cabeceiras de Basto! A meia encosta da verdejante terra onde um dia viveu D. Nuno Álvares Pereira, O Santo Condestável, surge uma antiga casa, bastante comprida, acompanhando o caminho, como se não o quisesse deixar, salpicada por janelas de guilhotina que marcam o ritmo da longa fachada. Essa casa pertenceu ao rico negociante e proprietário Manuel Joaquim Rebelo de Sousa, bisavô paterno do atual Presidente da República! Deste homem pouco se sabe! Nasceu em 1830 em Pedraça, Cabeceiras de Basto e subiu na vida à conta do seu jeito para o negócio, hoje dir-se-ia um empresário self-made man. Era casado com Felicidade de Jesus, ela sim natural do lugar do Paço, filha de José Mendes de Magalhães e de Teresa Dias de Jesus do Nascimento e neta materna de António Luís Dias e Maria Teresa.

Felicidade de Jesus, bisavó do Prof. Marcelo Rebelo de Sousa. Era carinhosamente chamada de "Mãe do Paço"!

Naquela casa do Paço, muito provavelmente mandada construir por Manuel Joaquim nasceram sete filhos. Duas raparigas, Rozalinda do Nascimento de Jesus e Valentina, e cinco rapazes, Baltazar, António, José, Bernardino e Joaquim. Todos os rapazes tinham "Joaquim" no segundo nome, excepto o próprio Joaquim de primeiro nome! Provavelmente alusão ao segundo nome do pai ou meramente uma moda da segunda metade do séc. XIX.
Casa da família Rebelo de Sousa, no lugar do Paço, Pedraça (informação
dada por um familiar). Atualmente a casa encontra-se totalmente abandonada
e à venda. Aqui funcionou em tempos a escola primária do lugar. A única
sala de aula ficava no salão da entrada. O resto da casa era ocupada pelos
caseiros.

António Joaquim, avô do Prof. Marcelo Rebelo de Sousa, nascido a 8 de abril de 1860, era o segundo filho do casal de proprietários. O seu destino cedo foi traçado... Emigrar! Naquele tempo, quer fossem ricos ou pobres o destino da maioria era esse! A terra era demasiado pobre, o meio demasiado rural, tristemente atrasado no tempo... Como é que um pai, apesar de ter posses poderia assegurar o futuro de tantos filhos? A herança seria severamente dividida por sete. Os filhos homens tinham de partir em busca da fortuna e as filhas mulheres casarem com quem a tinha já! E assim foi!

"Peço-vos que sejaes modestos no trajar; que trajeis sempre
segundo a graduação da vossa vida, nem de mais nem de menos,
porque tão mal parece estar collocados em boa posição e trajarmos
fóra della, como estamos collocados em fraca posição e trajarmos
acima della. Deveis conhecer que o luxo é quasi uma mania geral
e com elle se perdem boas casas, e por isso é só permitido para quem
está em estado de o ter, e de mais a mais o habito não é que faz o monge,
e por tanto o que nos torna differentes uns dos outros, são as boas ou más
acções que cada um de nós pratica..."
Excerto do livro de Manuel Joaquim Rebelo de Sousa
"Conselhos de um Pae Extremoso a seus Queridos Filhos ausentes no Brazil"
Typografia Lusitana do Porto, 1875.
Primeiro partiu Baltazar Joaquim, o filho mais velho, a 24 de abril de 1871 e depois foi o António Joaquim a 2 de junho de 1873. E lá foram eles no vapor para a "terra dos sonhos", o Brasil. António Joaquim tinha apenas 13 anos e o irmão 12! Nada de novo, perfeitamente natural na época onde a infância era roubada e a idade adulta rapidamente chegava. A cidade escolhida foi o Rio de Janeiro, destino da maioria e local para onde foram posteriormente outros familiares. Do outro lado do Atlântico estavam à espera uns amigos do pai que os colocaram na "vida comercial".

O pai, Manuel Joaquim Rebelo de Sousa seria bastante dedicado e por se separar tão cedo dos seus filhos quis deixar alguns conselhos para a posterioridade e nada melhor que os escrever! Em 1875 publicou "Conselhos de um Pae Extremoso a seus Filhos Queridos ausentes no Brazil", um livro dedicado à família, um hino à honestidade, integridade e honra, um guia para toda a vida...

Mas, o Brasil não estava no destino dos dois irmãos e passados dois ou três anos voltaram. Outro destino promissor surgiu... Angola!

Com a corrida aos territórios africanos das maiores potências europeias Portugal, que até então ocupava praticamente alguns locais costeiros de Angola e Moçambique e mediante a ameaça da perda de território que julgava historicamente seu, tentou fomentar a emigração e colonização dos territórios mais interiores, assim como a aposta nas expedições que culminaram em 1886 na proposta do "Mapa Cor-de-Rosa" que ligaria por terra Angola a Moçambique.

Rozalinda do Nascimento de Jesus Rebelo de Sousa,
tia-avó do Prof. Marcelo Rebelo de Sousa.
Assim com esta nova perspetiva de uma terra promissora, apesar dos inúmeros riscos que acarretava, principalmente as perigosas doenças tropicais como o paludismo e a malária, lá partiram eles para Luanda!

Primeiro os irmãos mais velhos e depois todos os outros rapazes! Apenas ficaram na terra as raparigas, que como não podia deixar de ser casaram com pretendentes abastados. Segundo fonte familiar, episódio insólito, não na época, mas naquela família, foi a fuga de casa da filha mais velha, Rozalinda do Nascimento de Jesus Rebelo de Sousa. Queria casar com o amor da sua vida, Joaquim Vilela de Andrade, da Casa da Carrapata, em Pedraça. O pretendente era 23 anos mais velho do que ela, viúvo e com filhos e possivelmente seria essa a razão dos inconvenientes do matrimónio. Mas casaram, anos mais tarde já com os filhos nascidos... A outra filha, Valentina Rebelo de Sousa casou com Avelino Martins de Carvalho, da Casa do Vale, em Arosa, Cavês, Cabeceiras de Basto.

Casa da Carrapata, em Pedraça. Fotografia de família de Rozalinda do Nascimento de Jesus Rebelo de Sousa,
anos 30.
Fotografia gentilmente cedida por familiar.

Registo de passaporte para Luanda de José Joaquim Rebelo de Sousa,
2 de maio de 1878.
In Arquivo Distrital de Braga, Registo de Passaportes 1877-05-26 / 1882-07-04
Ironia do destino, as famigeradas doenças tropicais acabam por matar Baltazar Joaquim a 11 de julho de 1883, apenas com 22 anos. Contudo, apesar dos riscos, os corajosos irmãos rumam a África, muito novos, demasiado novos! Bernardino Joaquim tinha apenas 12 anos quando partiu em 1881. O rosto estava cheio de borbulhas, acne precoce de uma adolescência anunciada, que curiosamente lhe deixou bastantes cicatrizes na cara. O mais novo e sardento irmão, o que se chamava simplesmente Joaquim, foi último a partir com 18 anos, viajou com o irmão António, em 1889.
Registo de passaporte para Luanda de Antonio Joaquim Rebelo de Sousa e o
irmão Joaquim Rebelo de Sousa, 20 de setembro de 1889.
In Arquivo Distrital de Braga, Registo de Passaportes 1888-10-24 / 1890-11-20

A 4 de julho de 1883, a família Rebelo de Sousa fica mais pobre quando desaparece o seu grande pilar... O patriarca Manuel Joaquim morre demasiado cedo aos 53 anos na sua casa em Paço de Vides. As rédeas da família são tomadas pela sua mulher Felicidade de Jesus, carinhosamente chamada de "Mãe do Paço".

Registo de passaporte para Luanda de Manuel Joaquim Rebelo de Sousa,
1 de setembro de 1881.
In Arquivo Distrital de Braga, Registo de Passaportes 1877-05-26 / 1882-07-04

António Joaquim Rebelo de Sousa, Lisboa, 1920.
Fonte: SOUSA, Marcelo Rebelo de, Baltazar Rebelo de Sousa, Fotobiografia, Bertrand Editora, 1999
Créditos fotográficos da Bertrand Editora. (1)

Cédula pessoal de António Joaquim
Rebelo de Sousa, 1924.
Fonte: SOUSA, Marcelo Rebelo de,
Baltazar Rebelo de Sousa,
Fotobiografia, Bertrand Editora, 1999;
Créditos fotográficos da Bertrand Editora.
(1)
Mas foquemo-nos no avô do Prof. Marcelo Rebelo de Sousa! Corria o ano de 1889, António Joaquim Rebelo de Sousa de 29 anos, ainda solteiro, encontrava-se emigrado em Angola, apesar de ter residência fixa em Braga. Tal como o pai e os irmãos, o negócio estava-lhe nas veias! Fez fortuna no interior de Angola a trocar tecidos e bugigangas por café!

Fernando, Mário e Maria de Lourdes,
filhos de Augusta Rebelo de Sousa,
e netos de António Joaquim e Joaquina
Rosa. Anos 30.
Fotografia gentilmente cedida por um
familiar.

Augusta Rebelo de
Sousa, filha de António
Joaquim e Joaquina Rosa.
Fotografia gentilmente
cedida por um familiar.
Por lá viveu maritalmente com Joaquina Rosa da Costa, natural de Águas Santas, na Póvoa de Lanhoso, de quem teve sete filhos, segundo testemunho de um familiar, uma rapariga chamada Augusta e seis rapazes, António, Bernardino, Joaquim, Eduardo, Álvaro e Óscar. Passados 30 anos no interior, resolveu estabelecer-se na baixa da cidade de Luanda, junto ao Palácio do Comércio, na Rua do Bungo, onde abriu uma loja que ficou conhecida como o "Casa Catonho Tonho", que no dialeto local significava a "Loja do António". À boa maneira tradicional por baixo ficava a loja e por cima a casa da família.

Na década de 10 do novo séc. XX morre Joaquina Rosa. Algum tempo depois António Joaquim casa com uma conterrânea das Terras de Basto, Joaquina Leite da Silva, a célebre "Avó Joaquina"!

Registo de batismo de Joaquina Leite da Silva.
In Arquivo Distrital de Braga, Registos Paroquiais,
Concelho de Celorico de Basto, Freguesia de Basto (São Clemente),
Batismos 1888-1895.
Joaquina, 35 anos mais nova do que o seu marido, nasceu a 17 de março de 1895 numa pitoresca terra pendurada nas encostas da serra da Lameira chamada Gandarela, pertencente à freguesia de Basto, São Clemente em Celorico de Basto.

A sua família era de origem bastante humilde. Os seus pais eram Manuel da Silva e Esulinda Leite, os avós paternos José da Silva e Ana de Meirelles e os maternos Francisco da Costa e Teresa Leite. Os seus padrinhos de batismo foram Manuel Magalhães, moleiro de profissão e a sua tia paterna Joaquina de Meirelles, criada de servir.

Apesar dos negócios em África, após o casamento o casal estabeleceu-se em Lisboa, na casa da Rua Vitorino Damásio, 26, 2º andar, em Santos-o-Velho. Os negócios de Luanda passaram a ser conduzidos pelos filhos mais velhos de António Joaquim.

António Joaquim Rebelo de Sousa com a mulher Joaquina Leite da Silva e o filho Baltazar Rebelo de Sousa, Lisboa, 1924.
Fonte: SOUSA, Marcelo Rebelo de, Baltazar Rebelo de Sousa, Fotobiografia, Bertrand Editora, 1999.
Créditos fotográficos da Bertrand Editora. (1) 

Baltazar Rebelo de Sousa com 1 ano,
Lisboa, 11 de maio de 1922.
Fonte: SOUSA, Marcelo Rebelo de,
Baltazar Rebelo de Sousa, Fotobiografia,
Bertrand Editora, 1999.
Créditos fotográficos da Bertrand Editora.
(1)
A 16 de abril de 1921 nasce em Lisboa o único filho do casal, Baltasar Rebelo de Sousa, pai do Prof. Marcelo Rebelo de Sousa, que em homenagem recebe o nome do seu tio Baltazar, que havia morrido precocemente em África.

Amélia Augusta e Maria da Graça,
filhas de Valentina Rebelo de
Sousa e sobrinhas de António
Joaquim Rebelo de Sousa,
18 de outubro de 1970.
Fotografia gentilmente cedida
por um familiar.
Mas infelizmente aos seis anos Baltazar perde o pai! No dia 7 de agosto de 1927 o coração fraco de António Joaquim não aguenta e morre precocemente aos 67 anos. Em testamento deixa os seus bens aos filhos, à mulher Joaquina e as terras de Pedraça que pertenceram ao seu pai Manuel Joaquim Rebelo de Sousa, conhecidas como "Campos de Cima", à sua irmã Valentina Rebelo de Sousa. Anos mais tarde a famosa Casa Catonho Tonho é vendida, não sobrevivendo após a independência de Angola, acabando demolida. Tudo acaba...

Joaquina Leite da Silva, ainda muito nova, anos depois volta a casar com Joaquim Terroso, comerciante de Fafe. Desse segundo casamento nasce Olavo.

O órfão de pai Baltazar cresce com a mãe, padrasto e irmão. A sua infância é relativamente solitária, encontrando alguns amigos que o acompanharam ao longo da sua vida na Escola Primária nº 18, na Rua das Janelas Verdes, em Lisboa. Cedo mostra sinais de ser um líder nato, prenúncio de uma vida de sucesso e poder.

Turma da 4ª classe da Escola Primária nº 18, em Lisboa. Baltazar Rebelo de
Sousa é o primeiro sentado à esquerda do professor Evaristo Figueiredo.
Fonte: SOUSA, Marcelo Rebelo de, Baltazar Rebelo de Sousa, Fotobiografia,
Bertrand Editora, 1999; Créditos fotográficos da Bertrand Editora. (1)
Queria seguir direito, mas o padrasto não deixou... As exigências familiares levaram-no em 1940 para o curso de Medicina onde encontrou uma das suas primeiras paixões, a Mocidade Portuguesa. Percorreu todos os escalões da organização  e lá conheceu um dos seus grandes amigos Marcello Caetano.

Baltazar como tantas pessoas da sua geração cresceu com o Estado Novo, dele fez parte, apesar das ideias progressistas, "diferentes e estranhas" que lhe eram atribuídas. Outra mentalidade muito à frente do seu tempo e da conjuntura da época. Mas o seu trabalho e dedicação levaram-o longe...

Maria das Neves Fernandes Duarte, mãe do
Prof. Marcelo Rebelo de Sousa, com 10 anos
quando ingressou no Colégio de Odivelas.
Fonte: SOUSA, Marcelo Rebelo de, Baltazar
Rebelo de Sousa, Fotobiografia, Bertrand Editora,
1999; Créditos fotográficos da Bertrand Editora. (1)
Ainda na faculdade conhece a mulher da sua vida que o acompanhará até ao final dos seus dias, Maria das Neves Fernandes Duarte. A mãe do Prof. Marcelo Rebelo de Sousa nasceu a 30 de julho de 1920, na freguesia da Conceição, Covilhã e cedo ficou órfã, primeiro de pai, Joaquim das Neves, que morreu com a Gripe Espanhola e depois da mãe, Maria Rosa Fernandes Duarte, que morreu no parto. Maria das Neves é criada pela avó, mas para continuar os estudos vem para Lisboa para o Colégio de Odivelas e fica ao cuidado do clérigo e tio Monsenhor António Fernandes Duarte.

A paixão avassaladora levou-os ao casamento, mas novamente a família não deixou! O que naturalmente não foi impedimento e a 5 de abril de 1947 casam na Igreja da Pena, em Lisboa, estando presentes apenas os noivos e os padrinhos. Como não podia deixar de ser Baltazar convidou o seu grande amigo Marcello Caetano e a mulher Teresa para padrinhos. Eles e os padrinhos da noiva foram as únicas testemunhas da união!

Mais tarde o convite para padrinho é novamente feito quando nasce o primeiro filho do casal, Marcelo Nuno Duarte Rebelo de Sousa, a 12 de dezembro de 1948. Mas Marcello Caetano declina alegando que era muito mais velho do que o pai da criança e que se a natureza seguisse o seu curso morreria antes, impossibilitando-o de cuidar do afilhado. Ficou apenas o nome, Marcelo!
Baltazar Rebelo de Sousa com os filhos. O Prof.
Marcelo Rebelo de Sousa é o do lado direito.
Fonte: Revista Sábado

Alguns anos depois nascem os outros dois filhos do casal, António Jorge, em 1952 e Pedro Miguel em 1955.

A vida profissional de Baltazar, sobejamente conhecida, foi sempre a subir até o 25 de abril de 1974. Aliás episódio caricato deu-se no início da sua carreira política como Subsecretário de Estado da Educação, em 1955. Era o seu primeiro ato oficial e como o filho Marcelo o acompanhava diversas vezes levou-o para o camarote presidencial. O então Presidente da República, Francisco Craveiro Lopes não gostou de ver aquele menino franzino num ato tão solene e disse: "Filho de Subsecretário de Estado não é Subsecretário de Estado. O menino faça o favor de sair!". Mal sabia ele que daí a muito anos aquele menino estaria no seu lugar, o de Presidente da República!

Também o irmão Pedro passou por algo inesquecível! Era o Dia da Mãe e de Nossa Senhora da Conceição, Pedro levou um ramo de flores ao Presidente do Conselho, António de Oliveira Salazar e durante os fastidiosos discursos adormeceu... Na cadeira de Salazar! A partir daquele momento, Salazar achando piada ao sucedido e perante a resposta do rapaz que não sabia o que estava lá a fazer, passou a chamar-lhe de "Zé Povinho"!
Fotografia oficial da família do Governador-Geral de Moçambique, 1968.
O Prof. Marcelo Rebelo de Sousa está atrás do pai, do lado direito.
Fonte Semanário Sol, Arquivo pessoal do Prof. Marcelo Rebelo de Sousa.

Joaquina Leite da Silva durante as férias na Gandarela,
Celorico de Basto. Início dos anos 70.
Fonte: SOUSA, Marcelo Rebelo de, Baltazar Rebelo de Sousa,
Fotobiografia, Bertrand Editora, 1999;
Créditos fotográficos da Bertrand Editora. (1)
Em 1968 Baltazar é nomeado Governador-Geral de Moçambique, cargo que ocupa durante dois anos. A família volta a África! Mas o Prof. Marcelo Rebelo de Sousa não, fica em Lisboa com a avó, que tinha vindo morar com eles após o falecimento de seu marido Joaquim Terroso. Nem a avó Joaquina escapa às partidas do neto. Valeu-lhe um enorme susto, ainda no rescaldo do sismo de 1969 quando o neto fez propositadamente tremer a cama onde dormia profundamente a sua avó. Por pouco a avó Joaquina não acabou a correr pela rua em camisa de noite!

Após a Revolução de 25 de abril de 1974, Baltazar, que na altura ocupava o cargo de Ministro do Ultramar vê-se obrigado a partir para o Brasil. A 30 de Junho, o casal Baltazar e Maria das Neves partem para São Paulo. Muitos anos depois do seu pai António Joaquim, os Rebelo de Sousa voltam novamente a Terras de Vera Cruz.

Joaquina Leite da Silva em Celorico de Basto. Foi uma das suas últimas
fotografias. Anos 70.
Fonte: Revista Sábado
Baltazar Rebelo de Sousa com os seus três filhos e neto Nuno. Brasil, 1979.
Fonte: Semanário Sol, Arquivo pessoal do Prof. Marcelo Rebelo de Sousa.
No dia 16 de abril de 1975, dia de anos de Baltazar, morre em Lisboa, a sua mãe Joaquina Leite da Silva. O filho, exilado no Brasil, estava longe, demasiado longe.

Os anos passaram e Baltazar e Maria das Neves voltam definitivamente a Portugal em 1995. Infelizmente os anos de vida que se seguiram não foram muitos! A 1 de dezembro de 2002 morre Baltazar Rebelo de Sousa e apenas três meses depois a 7 de março do ano seguinte morre Maria das Neves. Voltaram à sua terra...

A terra... As raízes familiares sempre foram algo muito caro para o Prof. Marcelo Rebelo de Sousa. Celorico de Basto, a terra das bonitas camélias e da sua querida avó Joaquina está constantemente presente no seu coração e não tem vergonha nem pudor em demonstrá-lo. Infelizmente nunca conheceu o seu avô António Joaquim natural do concelho vizinho da sua avó, mas tem certamente um grande orgulho em ter também parte das suas raízes em terra tão ilustre e antiga como é Cabeceiras de Basto.

Das brumas da memória surge Paço de Vides, terra que viu nascer e crescer os egrégios avós Rebelo de Sousa e deste Paço, que Palácio já não é, apenas lugar, partiu um dia António em busca de uma vida melhor. Quase 150 anos depois, o seu neto Marcelo chegou onde António nunca imaginaria, a outro Paço, este sim Palácio, o de Belém para ocupar o mais alto cargo da nação, o de Presidente da República.


"... como pae amante de seus filhos, estes poucos talentosos conselhos, feitos por um pae rustico, e criado no meio do campo; mas nos quais vos mostro os deveres do homem, que preza a sua honra e dignidade, e por isso espero em Deus que as minhas palavras fiquem gravadas no vosso coração, porque o meu fim não é aggravar o meu sangue, é querer que vos façaes por seguir a mais brilhante carreira possivel..."

Manuel Joaquim Rebelo de Sousa, Conselhos de um Pae Extremoso a seus Filhos Queridos ausentes no Brazil, 1875.


Agradecimentos especiais aos amigos cabeceirenses:
Prof. Francisco Martins Pacheco pela sua incansável ajuda nas pesquisas;
Augusto João Teixeira, da Casa do Tempo, Câmara Municipal de Cabeceiras de Basto.


Nota sobre algumas legendas: (1) Na impossibilidade de encontrar outras fotografias de família e dada a importância das pessoas nelas presentes para a construção desta crónica não houve outra alternativa se não recorrer a algumas que estavam publicadas na obra SOUSA, Marcelo Rebelo de, Baltazar Rebelo de Sousa, Fotobiografia, Bertrand Editora, 1999. 
Este blogue destina-se meramente a fins culturais com vista à divulgação das Terras de Basto e suas famílias, não existindo qualquer fim comercial nem lucro para o seu autor.

7 comentários:

  1. "Este homem tenaz (que enviuvou aos 50 anos e ficou com cinco herdeiros) casaria em segundas núpcias com Joaquina Leite da Silva (na foto, em baixo, nos anos 70), uma mulher 35 anos mais nova, natural de Celorico de Basto mas com sangue africano. Ironia das ironias, o primeiro herdeiro do casal , que dedicou a vida ao regime, chegou ao mundo um mês após a fundação do PCP: Baltazar Leite Rebelo de Sousa nasceu a 16 de Abril de 1921". Em "As aventuras da família Rebelo de Sousa"http://www.sabado.pt/
    Sangue africano, peço-lhe que comente, meramente como facto real e sem outra intenão. Muito obrigada e parabéns pelo trabalho de investigação.

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  2. "Sangue africano" de Joaquina Leite da Silva, realmente desconheço! Os pais eram naturais da Gandarela, Celorico de Basto, tal como os avós. Pelo menos é o que consta do registo de batismo publicado também nesta história. Quanto aos cinco herdeiros da primeira relação de António Joaquim, a informação que eu tive por familiares é que eram 7 filhos (1 rapariga e 6 rapazes). Muito obrigado pelo seu comentário.

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  3. Adorei, e com base neste texto e fotos, recorrendo a outros sites na Net a partir do Google, vou redigir um texto ainda mais completo (se encontrar informações adicionais e/ou complementares).

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  4. Obrigado por tão interessante exposição sobre a família do actual Presidente da República. Gostaria de perguntar se tem por acaso alguma informação sobre a origem de Joaquim Terroso, padrasto do Dr. Baltasar Rebelo de Sousa. É que disseram-me que era da família Santos Terroso, de Barcelos, mas queria saber a sua filiação e naturalidade. Muito obrigado.

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    1. Muito obrigado pelas suas palavras. Quanto à família do 2º marido de Joaquina Leite da Silva, Joaquim Terroso, não tenho mais dados. Apenas sei que era de Fafe e teve deste casamento com a avó Joaquina do Prof. Marcelo Rebelo de Sousa um filho chamado Olavo. Mais nada...

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  5. Um belo texto, uma bela história.
    Só um pequeno esclarecimento. Em 1948 o Catonho Tonho foi comprado por José de Freitas Abilheira. Quando o antigo e belo prédio foi demolido,o armazém Catonho Tonho passou a fucionar ao lado do palácio D. Ana Joaquina. Foi confiscado depois da independência e hoje é pertença do BAI(banco africano de investimento)

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