Os Mortos de Sobrecasaca

"Havia a um canto da sala um álbum de fotografias intoleráveis, alto de muitos metros e velho de infinitos minutos, em que todos se debruçavam na alegria de zombar dos mortos de sobrecasaca. Um verme principiou a roer as sobrecasacas indiferentes e roeu as páginas, as dedicatórias e mesmo a poeira dos retratos. Só não roeu o imortal soluço de vida que rebentava, que rebentava daquelas páginas."

Carlos Drummond de Andrade, Os Mortos de Sobrecasaca (Sentimento do mundo, 1940)

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

O COMENDADOR - Fidalgo do Eirô e "brasileiro" do Caboclo...

Retrato do Comendador Alfredo Pinto Coelho ainda jovem.
Séc. XX, início.
Fotografia gentilmente cedida pelo neto Alfredo Simões
Pinto Coelho.

"A ingratidão é o imposto cobrado à generosidade."

Carlos Drummond de Andrade


Esta frase de um conhecido poeta brasileiro é o mote para falar de um dos homens mais generosos do seu tempo por Terras de Basto e que o tempo se encarregou de esquecer ou não relembrar na proporção do seu altruísmo... O seu nome era Alfredo da Graça de Matos Pinto Coelho, também conhecido como Comendador Alfredo Álvares de Carvalho. Mas as confusões dos apelidos ficam para mais adiante...

Na linha temporal recuemos quase 150 anos...

O Assassínio de Inês de Castro.
Óleo sobre tela, Karl Briullov, 1834.
Museu Estatal Russo, São Petersburgo, Rússia.
Em Mondim de Basto, a 9 de fevereiro de 1869 nascia um menino de uma família com considerados pergaminhos, cuja madrinha de batismo foi Nossa Senhora da Graça, venerada no alto do imponente Monte Farinha. Era filho de Bernardo Gonçalves de Matos, de Atei, Mondim de Basto e de D. Maria do Patrocínio Pinto Coelho de Moura Teixeira, da vila de Mondim de Basto. Era pelo lado da sua mãe que lhe corria o "sangue azul" dos Pinto Coelho, Senhores de Felgueiras e do Paço de Simães, cuja linhagem ia até ao famoso antepassado medievo Egas Moniz, o aio do primeiro rei de Portugal, D. Afonso Henriques. Nobre família cheia de história e histórias ao longo dos séculos, nas quais se incluía a de outro antepassado, Pero Coelho que viveu no séc. XIV e que foi um dos implicados no assassinato da também famosa Inês de Castro. Este avoengo do Comendador não teve um final feliz, o rei D. Pedro I com sede de vingança mandou executá-lo de uma forma brutal, proporcional ao amor que o rei sentia por Inês de Castro. Mandou arrancar o seu coração pelo peito e depois queimar o corpo!

A vila de Mondim de Basto nos anos de 1915/1917.
Largo fronteiro à antiga Câmara Municipal, atual Largo do Conde de Vila Real.
Na fotografia de baixo, do lado esquerdo consegue-se ver parte do portal
da Casa do Eirô de Baixo, antes de ser remodelado pelo Comendador.
Postais ilustrados, Edição de José Teixeira Torres, circulados em 1917.
A sua nobre família tinha ramificações em várias Casas da vila de Mondim, a Casa do Balcão, da Costa, do Atalho, da Igreja e do Casal. E claro, as Casas do Eirô, a de Cima e a de Baixo! Parece que as ligações a esta Casa terão vindo pelo lado do seu avô materno, o Dr. José Pinto Coelho de Athayde de Portugal e Castro, que havia casado com uma senhora da Casa do Eirô de Cima, a D. Delfina Bárbara de Moura Teixeira Moreira.

Casa do Eirô de Baixo, onde viveu o Comendador Alfredo Pinto Coelho. Atualmente é o edifício da Câmara Municipal de Mondim de Basto. Esta casa pertenceu à família Pinto Coelho até à década de 70, do século passado, altura em que a família a vendeu ao município. Terá sido alvo de profundas reformas possivelmente no final da década de 10 ou durante a década de 20 do séc. XX, por iniciativa do Comendador, incluindo o portal, que apresenta o brasão com as armas dos Pinto, Ataíde, Coelho e Castro. Este brasão, assim como a estatuária serão mais antigos à reforma do séc. XX e, possivelmente, poderão até ter vindo da Casa da Costa, também da família, onde está atualmente a Misericórdia de Mondim de Basto. Este portal terá sido inspirado no portal do Paço de Simães, em Felgueiras, intimamente ligado à família Pinto Coelho.
Mas foram as ligações com outra conhecida família de Mondim de Basto, os Álvares de Carvalho, da Casa da Igreja que lhe ditaram o destino! O seu pai havia casado em segundas núpcias com Filomena de Assunção Álvares de Carvalho, uma irmã de outro comendador, José Augusto Álvares de Carvalho, o chamado "Comendador da Igreja", com grandes negócios no Recife, Brasil e considerado por alguns o homem mais rico de Pernambuco, no seu tempo! Emigrou apenas com 14 anos para o Brasil e construiu um império! E é com este "Comendador da Igreja" que Alfredo Pinto Coelho vai trabalhar.
Vista dos arrecifes, formações rochosas naturais
 que deram o nome à cidade do Recife.
Recife, Pernambuco, Brasil, Augusto Stahl, 1875.
Acervo Instituto Moreira Salles, in Brasiliana Fotográfica Digital.

Em 1891 ruma no vapor para o Brasil, para o Recife, capital de Pernambuco. Dinheiro não seria a razão certamente, era um emigrante especial! Quando chega ingressa na empresa do irmão da madrasta, a firma Álvares de Carvalho.

Era uma empresa enorme, conceituadíssima, fundada em 1851 por Joaquim Ferreira de Araújo Guimarães. Eram grandes importadores e retalhadores de ferragens, cutelarias e armas, com enormes depósitos de ferro, aço, cobre, latão e chumbo. Tinham uma loja icónica no centro da cidade, na Rua Duque de Caxias nº 86 chamada os Armazéns Caboclo. O curioso nome advinha de uns antigos sócios portugueses, da firma Ferreira Guimarães & C. que entraram em 1864 e que tinham a pele morena. Ora no Brasil os índios eram chamados de caboclos, nome algo injurioso por ventura, mas a cor exótica da pele dos sócios deu assim o nome aos armazéns, que ficou e perdurou no tempo, mesmo quando saíram os "caboclos" portugueses, em 1884 e entraram na sociedade o então já referido José Augusto Álvares de Carvalho, o "Comendador da Igreja", e Rodrigo Lopes de Oliveira, mudando o nome da firma para Álvares de Carvalho.

Vista da cidade do Recife, com o alto prédio dos Armazéns Caboclo em primeiro plano. Alusivo ao curioso nome encontram-se a decorar a fachada estátuas de índios. Ao fundo da rua vê-se a famosa Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos.
Postal ilustrado, séc. XX, década de 20.
Alfredo Pinto Coelho começou primeiro como interessado, depois gerente e em 1896 torna-se sócio em exclusivo com o "Comendador da Igreja". Mas as relações foram além das profissionais e casou com a sua filha mais velha, D. Beatriz Augusta Álvares de Carvalho.

Este casamento durou pouco... A sua jovem mulher morre de parto, não deixando descendência. Mais tarde casa novamente com a brasileira D. Flora Isabel de Carvalho. Segundo um familiar terá sido um casamento arranjado que não lhe trouxe amor, vivendo vidas separadas, unidos apenas no formal papel!

O Comendador Alfredo Pinto Coelho, sentado ao centro, rodeado por familiares da Casa da Igreja. Sentada, do lado esquerdo está a sua sobrinha, D. Maria do Patrocínio. Década de 20 do séc. XX.
Fotografia gentilmente cedida por Luís Jales de Oliveira.
Anuncio dos Armazéns do Caboclo, onde aparece o
Comendador ladeado pelos sócios e interessados.
In Jornal do Recife, 1 de janeiro de 1929.
Em 1908 o sogro volta para Portugal e deixa a sociedade unicamente para Alfredo Pinto Coelho. Novos sócios são admitidos... Mas é com a 1ª Grande Guerra Mundial que a firma Álvares de Carvalho ganha novo fôlego, através do negócio do ferro e do armamento. A desgraça de uns foi a sorte de outros! E Alfredo Pinto Coelho fica cada vez mais rico, rico, rico... E muda o nome! Acrescenta aos seus apelidos "Álvares de Carvalho", o nome da sua firma, da sua primeira mulher e do seu sogro. Passa a ser conhecido como Alfredo Álvares de Carvalho! Como se de uma operação de marketing se tratasse a sua nova imagem "esquece" as centenas de anos de história dos Pinto Coelho! A pessoa funde-se com a marca... Era certamente uma pessoa de visão, muito à frente do seu tempo! E de FIDALGO PASSA A "BRASILEIRO", O DO CABOCLO!
Condecorações atribuídas a
Alfredo Pinto Coelho,
         o Comendador Benemérito.           

Mas a riqueza não lhe subiu à cabeça, apenas lhe aguçou a sua maior qualidade, a generosidade! Qualidade essa que pelas suas muitas ações como benemérito lhe deu o titulo de COMENDADOR, da Ordem de Cristo e da Ordem da Benemerência, pelos serviços prestados à comunidade brasileira, principalmente a de Pernambuco, e à comunidade portuguesa, a da sua terra natal, Mondim de Basto. Os anos 20 e 30 são o auge!

Diploma de sócio benemérito do Gabinete Português de Leitura
atribuído ao Comendador a 18 de janeiro de 1925.
Em Pernambuco era adorado. A todos ajudava... Foi um grande apoio do Real Hospital de Beneficência Português, no qual foi provedor por mais de 20 anos e muitas doações lhe fez. Há aliás na imprensa da época uma notícia de uma viagem que fez à Europa para visitar outros hospitais para ver como podia melhorar aquela instituição pernambucana. Mas não ficou por aqui... Foi também um grande benemérito do Gabinete Português de Leitura do Recife, do Clube Português, do Circuito Católico de Pernambuco, presidente do Banco do Povo e mais, e mais... Quando o Comendador chegava de viagem de Portugal havia sempre uma enorme comitiva para o receber!

Mas era pela sua terra natal e pelos seus que dava tudo!

A rural vila de Mondim de Basto nos anos de 1915/1917.
Postal ilustrado, edição de José Teixeira Torres, circulado em 1917.
Estampa de Nossa Senhora da Graça, mostrando como fundo
o Santuário no alto do Monte Farinha, vulgarmente conhecido
como Alto da Senhora da Graça.
Edição Lito. Nacional - Porto, Década de 30/40 do séc. XX.
Naquele tempo a vila de Mondim de Basto era mínima, não é que hoje seja muito grande, mas... E à pequenez juntava-se uma extrema pobreza, um extremo isolamento, mais rural era difícil! Mas o Comendador tentou e conseguiu mudar um pouco tão malfadada condição. As suas obras foram muitas... E todas pagas do seu bolso!

Imagine-se que no final dos anos 20 a vila ainda não tinha água canalizada e foi o Comendador que a trouxe, direitinha do Monte da Senhora da Graça. Ainda hoje essa água serve a parte antiga da vila! Mas muito mais houve... Muitas doações em dinheiro para os bombeiros e a banda de música, restauros da igreja matriz, da Capela do Senhor, construção da residência paroquial, transladação e reconstrução da Capela da Senhora da Piedade, que estava no cemitério e clara, a obra para a sua madrinha, a Nossa Senhora da Graça... Pagou o restauro do santuário, ofereceu várias imagens e reconstruiu a Casa do Ermitão e edifício de apoio aos peregrinos, que havia ardido durante um arraial de São Tiago.

O Comendador  ladeado por várias mulheres a comemorar o restauro do Santuário de Nossa Senhora da Graça.
Tirada no Santuário de Nossa Senhora da Graça, Mondim de Basto, década de 30 do séc. XX.
Fotografia gentilmente cedida por Luís Jales de Oliveira.
Antiga Rua do Costa Liberal, vendo-se ao fundo
a Casa da Costa antes de ser reconstruída.
Atualmente encontra-se lá o edifício da
Santa Casa da Misericórdia de Mondim de Basto,
e Lar de Idosos. Imagem de 1915/1917.
 Postal ilustrado, edição de José Ferreira Torres, circulado
 em 1917.
Também foi um dos maiores beneméritos do Seminário de Vila Real, e claro o Bispo agradecia! Tanto era que quando o Comendador chegava do Brasil, era o próprio Bispo de Vila Real que vinha recebê-lo a Mondim de Basto, com uma enorme multidão ao som da banda de música! Ficou para a memória, um quarto na Casa do Eirô de Baixo chamado o "quarto do Bispo" destinado apenas aquela eclesiástica figura.

Diploma de Irmão Honorário nº 1 da Santa Casa
 da Misericórdia de Mondim de Basto, atribuído
ao Comendador a 1 de outubro de 1936.
Foi também o fundador da Santa Casa da Misericórdia de Mondim de Basto, em 1935 à qual doou a sua Casa da Costa e quinta anexa para o sustento, assim como uma grande quantia em dinheiro e parte das rendas de vários edifícios que tinha no Recife. Pode-se dizer que as suas máximas também eram as obras da Misericórdia, "dar de comer a quem tem fome", "dar de beber a quem tem sede"...

Estátua "A Primavera" oferecida pelo Comendador
Alfredo Pinto Coelho à sua vila.
Largo do Conde de Vila Real, Mondim de Basto.
A Estátua da Liberdade, oferecida pela França aos
Estados Unidos da América, com o retrato do
autor, Fréderic Auguste Bartholdi e
inaugurada a 28 de outubro de 1886.
Em baixo, a fonte do mesmo escultor em Washington
com estátuas de morfologia idêntica à "Primavera".

Mas procurou também embelezar e trazer um toque mais cosmopolita para a sua rural vila. Ofereceu-lhe uma original estátua em bronze, algo do género da Estátua da Liberdade! Só que esta foi batizada de "Primavera". O mistério da estátua ainda hoje permanece! Terá sido comprada a um sucateiro no Recife, após um leilão de armas da 1º Grande Guerra Mundial, trazidas de França, que o Comendador havia ganho e como bónus o sucateiro mostrou-lhe a estátua, que também tinha a mesma origem das armas. O sua autoria é desconhecida, mas... Será do francês Fréderic Auguste Bartholdi, autor da famosa Estátua da Liberdade? Será da sua oficina, de um seu discípulo? Ninguém sabe, mas o que é certo é que apresenta algumas semelhanças com outros seus trabalhos. De que região de França terá vindo? Possivelmente foi vendida após as destruições causada pela 1ª Grande Guerra, e o tema da Liberdade é recorrente em França, aliás também a Marianne, personificação da figura da República Francesa é apresentada a segurar a tocha da Liberdade. É um mistério que permanece. Esta "Marianne" batizada de "Primavera" foi colocada em frente da Casa do Eirô de Baixo, onde ainda permanece, a 1 de dezembro de 1932.
O Comendador com a companheira Maria Rosalina
Pires dos Reis durante uma viagem ao Buçaco em 1934.
Fotografia gentilmente cedida por Luís Jales de Oliveira.

Mas a vida social e pessoal do Comendador também deu que falar! Já na casa dos 60 e tal anos conheceu em Mondim de Basto uma jovem que o deslumbrou e que foi o amor da sua vida! A separá-los, 46 anos de diferença de idade e uma condição social radicalmente oposta! Este seu novo amor chamava-se Maria Rosalina Pires dos Reis. Morava na Rua Velha e era filha de Francisco dos Reis e Cândida Pires. Nasceu a 18 de maio de 1915 e pertencia a uma família bastante humilde. Que escândalo! Um fidalgo, de uma família tão conhecida e conceituada, riquíssimo, casado ainda e a namorar com uma jovem senhora! O que as bocas calavam, as mentes todas falavam. Ninguém tinha coragem de o criticar, uns porque achavam que era uma excelente pessoa, outros porque lhe deviam tanto e outros ainda porque lhe queriam tanto (dinheiro)! O que é certo é que o seu casamento com Flora, a brasileira, nunca foi além do papel e ele nunca se quis separar dela, mas ainda assim todos sabiam da vida uns dos outros e todos aceitavam naturalmente! E assim foi...

Viveu maritalmente com Maria Rosalina na sua Casa do Eirô de Baixo e teve quatro filhos, os seus únicos descendentes, devidamente reconhecidos, apesar de nunca ter casado com a sua companheira. Nasceram dois rapazes e duas raparigas, Alfredo, Maria do Patrocínio, Maria de Lourdes e Artur.

O Comendador Alfredo Pinto Coelho, mais velho,
na década de 30 do séc. XX.
Fotografia gentilmente cedida pelo seu neto Alfredo
Simões Pinto Coelho.
Maria Rosalina acompanhava-o frequentemente nas suas viagens ao Brasil e era como esposa que era apresentada e reconhecida. Flora ficou esquecida, sem nunca ter sido lembrada... A família do Comendador nunca se terá conformado, pelos menos as duas irmãs "solteironas" que moravam na Casa do Eirô de Cima, paredes meias como o de Baixo sempre com sorrisos amarelos para a sua "cunhada" durante a vida do comendador e que depressa se tornaram semblantes fechados após o seu desaparecimento. Ainda há quem se lembre do "muro da vergonha" que foi construído após a morte do Comendador para separar os dois Eirôs. Assim as Senhoras Pinto Coelho não tinham de ver a mulher escolhida e os herdeiros legítimos  do Comendador.

É tão fácil criticar... Mas as suas ações valeram por tudo e abafaram as invejosas palavras que possam ter sido ditas e muito pensadas. Muitas famílias de Mondim lhe devem, muitos foram os que ele deu trabalho numa terra sem nada para dar, levava-os às suas custas para o Brasil e iam trabalhar para a sua firma Álvares de Carvalho. Bastava pedir e ele dava a mão! Ainda há quem se lembre das esmolas da Casa do Eirô! Era um dia por semana que os pobres faziam fila à sua porta para receber uma bandeja de moedas que lhes era sempre dada sem falta.

Jazigo do Comendador e família mandado construir
por ele no cemitério de Mondim de Basto.
Tudo isto durou até 11 de setembro de 1942, altura em que o Comendador morre no Porto com a idade de 73 anos. Em testamento deixou os seus bens do Brasil à sua legitima mulher, Flora e a muitos mais amigos, e à companheira e filhos os seus bens em Mondim de Basto. Pediu ainda que lhe fosse rezada todos os meses uma missa pela sua alma. E o pedido foi cumprido... Na Capela da sua Casa era sempre rezada missa e no final a família dava sempre a esmola a todos os pobres, como ele gostava. E assim foi assim até um dia...

Na capela já não há missa, na casa já não há família! Já não se ouve a banda de música nem o tilintar das moedas nas bandejas... SILÊNCIO é tudo o que resta, um silêncio que percorre todas as ruas da vila. Ainda assim uma voz, não sei, algo, teima em lembrar que o mais nobre dos gestos não pode ser esquecido, pois tal como diz o poeta e nunca é demais repetir...

"A ingratidão é o imposto cobrado à generosidade."

Carlos Drummond de Andrade


O neto do Comendador, Alfredo
Simões Pinto Coelho com a sua avó
Maria Rosalina Pires do Reis,
carinhosamente chamada de
"Avó Lina".
Mondim de Basto, 2001.
Agradecimentos especiais:

Ao neto do Comendador, Alfredo José Simões Pinto Coelho pela sua enorme generosidade em me ajudar nesta hérculea tarefa;

A Luís de Jales de Oliveira pela cedência de algumas fotografias do seu acervo particular.

quarta-feira, 6 de julho de 2016

A Revolta dos Padres - O Padre Guerreiro de Basto por "DEUS, PÁTRIA E REI"

O que leva os "homens de Deus" a pegar em armas e lutar? A lutar, segundo o lema monárquico, por Deus, pela Pátria e pelo Rei! E o que leva um homem a manter-se fiel até ao fim da sua vida pelos seus ideais e nada, nem ninguém o demovendo, apesar das agruras que tudo isso trouxe a si e à sua família?

Esta é história da Revolta dos Padres durante as incursões monárquicas e de um dos seus líderes mais carismáticos, o padre Domingos Pereira.


Tropas republicanas em Cabeceiras de Basto, junto ao Mosteiro de São Miguel de Refojos, durante a 2ª Incursão Monárquica. No canto esquerdo, o líder da revolta realista de Cabeceiras, o padre Domingos Pereira.
In Ilustração Portuguesa nº 336, 29 de julho de 1912.


Rei D. Manuel II, o Patriota (1889-1932).
Fotografia de W. S. Stuart, autografada e tirada no exílio, 
em Richmond, Inglaterra, 1915.

"(...) Forçado pelas circunstâncias, vejo-me obrigado a embarcar
no "iate" real "Amélia". Sou português e sê-lo-ei sempre.
Tenho a convicção de ter sempre cumprido o meu dever de rei
em todas as circunstâncias e de ter posto o meu coração
e a minha vida ao serviço do meu país. Espero que ele,
convicto dos meus direitos e da minha dedicação,
o saberá reconhecer. Viva Portugal! (...)
Sempre muito afectuosamente, Manuel
"Iate" real "Amélia", 5 de Outubro de 1910".
(declaração do rei antes de partir para o exílio, 
para ser entregue ao presidente do governo Teixeira de Sousa).
"Ó Pátria, Ó Rei, Ó Povo,
Ama a tua Religião
Observa e guarda sempre
Divinal Constituição

Viva, viva ó Rei
Viva a Santa Religião
Vivam Lusos Valorosos
A feliz Constituição (...)"

Assim começa o Hymno da Carta, escrito por D. Pedro IV e hino nacional de 1834 até 1910, o derradeiro fim de quase 800 anos de monarquia. E assim começa também esta história, no dia 5 de outubro de 1910...

Pelas 11 horas da manhã após um golpe militar é hasteada a bandeira verde e vermelha nos Paços do Concelho de Lisboa e proclamada a República. À tarde, a família Real que se havia refugiado no Palácio de Mafra desloca-se para a praia da Ericeira, onde a bordo do iate real Amélia, parte para o forçado exílio, rumo a Gibraltar. Nele seguem o último rei de Portugal, D. Manuel II, a sua mãe a rainha D. Amélia, a sua avó a rainha D. Maria Pia e o seu tio o infante D. Afonso. Apenas D. Amélia voltaria a Portugal 35 anos depois! D. Manuel II voltaria antes, em 1932... Mas desta vez morto, com autorização de Salazar para ser sepultado no Panteão Real da Dinastia de Bragança, no Mosteiro de São Vicente de Fora, em Lisboa.
Henrique Mitchell de Paiva Couceiro.
(1861-1944)
Foi o chefe dos realistas e responsável
pelas várias incursões monárquicas
entre 1911 e 1919 que visavam
restaurar a Monarquia em Portugal.
Fotografia do acervo familiar.

No dia seguinte à implantação da República, muitos foram os que se tornaram de repente republicanos... Há que dançar conforme a música, já diz o ditado! No entanto apesar do novo regime ser aceite com relativa passividade, principalmente nas grandes cidades, muitas foram as tentativas para restaurar a Monarquia e perturbar os planos da República. E a encabeçar os agora chamados "revoltosos" e "realistas" estava o líder Paiva Couceiro. E no meio de tantos novos "fora-da-lei" estavam nada mais, nada menos do que muitos PADRES!

Os sacerdotes, que haviam jurado dedicar a sua vida a Deus e a bem do próximo, resolveram juntar-se em jeito de cruzada contra os novos infiéis e inimigos da Santa Religião, os republicanos! Amadurecidas no seio das Lojas Maçónicas e da Carbonária, já vinham de longe as intenções de mais uma vez quebrar a Igreja, que no final da monarquia dispunha de uma situação relativamente privilegiada, apesar de estar bastante subjugada ao Estado. E claro, assim que mudou o regime, os republicanos iniciaram a perseguição!

Papa Pio X (Pontíficado: 1903-1914).
Perante as duras leis da República Portuguesa
principalmente a Lei da Separação, o papa
faz um dos juízos mais duros da história na
sua Encíclica "Jandudum in Lusitania" ao
condenar as ações do Estado Português e
reiterando todo o apoio aos bispos portugueses.
A circulação desta Encíclica em Portugal
foi fortemente limitada pelo governo português.
E novamente acordaram os antigos fantasmas... Os novos decretos puseram em vigor as antigas leis de expulsão dos Jesuítas e do encerramento e extinção das Ordens Religiosas. Militares e muitos populares expulsam dos conventos os religiosos e excessos são cometidos no calor do momento. Muitos ao serem perseguidos não vêem outra solução se não fugirem para o Brasil. Saem decretos atrás de decretos com vista a combater o clericalismo, e alguns deles, obviamente, feriram de morte os sacerdotes, nomeadamente a abolição dos dias santos e das festas religiosas, a proibição de darem aulas ao ensino primário, a proibição dos juramentos religiosos e a gota de água para o conservador catolicismo, a possibilidade do divórcio! Muitas mais "machadadas" houveram como a lei de 18 de fevereiro de 1911 que criou o registo civil obrigatório, sendo todo o direito de registo retirado à Igreja. Isto para um Estado que queria ser laico, tudo bem, mas a maneira retorcida e humilhante como foi feita não seria tão boa! O novo regime estipulou que para a celebração religiosa de batismos, casamentos e funerais fosse obrigatoriamente apresentada uma certidão, que por sinal era bastante cara e muitas vezes dificultada de propósito pelos funcionários do novo registo civil. Havia até relatos de pessoas pobres que já não casavam pela igreja devido ao valor elevado do custo das certidões. E isto para Igreja era fatal, para não falar na ingerência do Estado nos assuntos internos e administrativos eclesiásticos. O golpe final é dado a 20 de abril de 1911 com a Lei de Separação do Estado das Igrejas, nacionalizando todos os bens eclesiásticos, condicionando o culto religioso, estabelecendo as "cultuais", organizações laicas que iriam gerir os bens da Igreja, e retirando os rendimentos aos sacerdotes, concedendo a jeito de humilhação e como forma de controle, uma pensão com condições muito restritas a quem a requeresse. Perante tudo isto o Papa Pio X condena veemente as atitudes republicanas, pois "despreza a Deus e repudia a profissão da fé católica".

Não será pois de estranhar que muitos padres se recusem a seguir as imposições e os novos rumos republicanos, passando ora a lutar na sombra ora a despir as batinas e a pegar em armas.
Alguns dos padres "revoltosos" que engrossaram as fileiras do exército realista de Paiva Couceiro.
Fotografia tirada no exílio, em Tui, Pontevedra, Galiza.
In Ilustração Portuguesa nº 337, 5 de agosto de 1912.
Padre Domingos Pereira.
Fotografia gentilmente cedida pela bisneta Fernanda
Paula Pereira.

E é aqui que entra o protagonista desta história, um padre que em 1911 já não o era, Domingos Pereira!

Mas recuemos uns bons anos atrás...

A 9 de agosto de 1862, às 9 horas da manhã, em Vilarinho de Negrões, freguesia de Negrões e concelho de Montalegre, nascia Domingos, filho dos lavradores António Pereira e Luísa Gonçalves Carreira. O seu padrinho foi o tio materno, João Albino Gonçalves Carreira, pároco de Refojos, em Cabeceiras de Basto. A longa tradição de haver vários sacerdotes na família materna ditou o destino de Domingos e do seu irmão Manuel, ao ingressarem no Seminário de Braga para seguirem a vida eclesiástica.

Em 1886, aos 24 anos, já era padre e por influência do tio foi para pároco de Outeiro, em Cabeceiras de Basto. O tio devia gostar de ter a família por perto, pois o irmão Manuel e José Maria também foram morar para lá. Manuel também se ordenou sacerdote e José Maria optou pela vida laica e tornou-se funcionário público.

Naquele tempo, não é que hoje em dia não aconteça, a religião misturava-se com a política, e o jovem padre Domingos era um fervoroso militante do partido Regenerador, um dos partidos do rotativismo da monarquia constitucional. Já o seu tio padre era da oposição, o partido Progressista... E este despique partidário não deu bons resultados! O tio tentou a toda a força que ele se tornasse militante do seu partido, pedindo até ajuda ao Arcebispo de Braga, D. Manuel Baptista da Cunha para o convencer. Mas a ameaça velada de o desterrar para a paróquia isolada de Lamares, em Vila Real não o fez vergar! Naquele momento o padre Domingos bate o pé e prefere deixar de ser padre, já que a vocação não seria muita, a trair os seus ideais terrenos. Venceu a política!
O padre Domingos Pereira, sentado ao centro, rodeado por amigos monárquicos, incluindo, do lado esquerdo, sentado e de luvas, o 2º Visconde de Paço de Nespereira e atrás, o primeiro do lado direito, Serafim Gomes de Paula Bastos, que veio a ser sogro do seu filho José de Sousa Pereira.
Fotografia gentilmente cedida pela bisneta Fernanda Paula Pereira.

Valentina da Conceição Sousa (1871-1954)
Fotografia gentilmente cedida pelo bisneto António Franco.
Com o cabeção e a batina de lado dedica-se ao ensino no Liceu da Cabeceiras de Basto, dando aulas de História, Geografia, Português e Latim. E como militante ativo do seu partido do coração assume lugares de Administrador do Concelho em Cabeceiras de Basto e Fafe, consoante o partido Regenerador estava no poder ou não!

E quebrados os votos sacerdotais, apesar de nunca os ter resignado oficialmente, são também quebrados os votos de celibato! O padre Domingos passa a viver maritalmente com Valentina da Conceição Sousa, natural de Pedraça, em Cabeceiras de Basto, e afilhada de Manuel Joaquim Rebelo de Sousa, bisavô do atual Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa. Aliás, segundo testemunho familiar, Valentina pertenceria também a esta família. Curiosas estas ligações indiretas e improváveis entre pessoas ligadas à Monarquia e à República! E sucedem-se os filhos... Bem, dois já eram nascidos desta relação, uma rapariga Clotilde e um rapaz, o José. Depois vieram mais duas raparigas, a Júlia e a Laura e dois rapazes, o Alberto e o Carlos.

Mas a calma da sua nova vida civil é quebrada com o implantação da República. Nunca poderia aceitar tal regime, era monárquico convicto e apesar de já não exercer o sacerdócio era crente e reconhecia os duros golpes que estavam a ser infligidos contra a Santa Religião. E assim tornou-se um dos muitos resistentes!

D. Miguel Januário de Bragança (1853-1927),
filho do rei D. Miguel I e pretendente ao trono.
A 30 de janeiro de 1912 é feito um acordo entre
as duas fações da família real, o rei D. Manuel
e o seu primo D. Miguel, no chamado Pacto de Dover,
em que D. Miguel reconhecia como legitimo rei
D. Manuel e este reconhecia o seu primo como herdeiro do trono.
No entanto as duas fações continuaram a não se entender,
resultando a 17 de abril de 1922 no Pacto de Paris ditando
que no caso do rei D. Manuel não ter filhos seria o herdeiro
natural o filho de D. Miguel, D. Duarte Nuno de Bragança,
pai do atual Duque de Bragança, D. Duarte Pio e pretendente
ao trono português.
As tentativas de repor a Monarquia começaram logo um ano depois, a 5 de outubro de 1911, com a 1ª incursão monárquica em Vinhais, cuja invasão através da Galiza das tropas realistas lideradas por Paiva Couceiro levou ao hastear da bandeira azul e branca. Mas tiveram de recuar e falhou a tentativa! Muitos foram os esforços para reunir apoiantes e lutadores da causa, e tiveram muitos, mas não os suficientes! Havia muitos padres e maioritariamente fidalgos da aristocracia, titulados ou não, que haviam perdido o seu suporte com a partida do rei. Os chamados "pinocas" de anel de brasão no dedo! E claro que o apoio do rei deposto era fundamental, mas nunca o foi dado declaradamente e muito menos incondicionalmente. Os monárquicos estavam divididos... E foram a Londres tentar um acordo com o rei exilado. Uma das condições para o consenso seria o impedimento do regresso da rainha-mãe D. Amélia, tida por alguns como uma influência nefasta para o rei. Claro que a reação de D. Manuel não podia ser outra... "Por este preço, nem todas as coroas do mundo!". E mais, havia os manuelistas, que apoiavam o rei D. Manuel e a havia os miguelistas que queriam que o novo rei fosse D. Miguel Januário de Bragança, um primo afastado descendente do ramo miguelista. Esta divisão levou Paiva Couceiro a combater com a bandeira monárquica sem a coroa, o que naturalmente não agradou ao rei D. Manuel.

Mas voltemos ao protagonista, o padre Domingos... A sua fama de resistente monárquico havia levado a que Paiva Couceiro, que ainda não o conhecia pessoalmente, o contactasse pedindo a sua colaboração com 400 homens para uma 2ª incursão que estava a ser preparada para o inicio de julho. O padre Domingos aceitou logo... Deveria comandar a invasão em Cabeceiras de Basto.

A ideia de Paiva Couceiro era tomar Valença e Chaves e esperar que a revolta se alastrasse como um rastilho por todo o norte, tido como monárquico, principalmente as zonas mais rurais que ao longo dos anos tinham estado debaixo do sagrado manto da Igreja devido à influência dos padres nas suas aldeias. A invasão passaria a fronteira por Vila Verde da Raia, visto que estavam exilados na Galiza. Tinham de avançar depressa pois o governo espanhol havia lhes dado um ultimato, ou avançavam com a revolta ou eram expulsos do país. Espanha tinha uma posição dúbia, por um lado apoiava os monárquicos portugueses, porque tinham como soberano um rei, Afonso XIII, e por outro queria ser neutra para não entrar em conflito diplomático com o novo governo republicano português.

João Augusto Mendonça Barreto,
Administrador do Concelho de
Cabeceiras de Basto.
In Ilustração Portuguesa nº 335,
22 julho de 1912.
Mas o padre Domingos precisava de treinar os seus homens, habituados unicamente a tiros de caçadeira. Como faria para explicar os tiros que se iam ouvir? Como mente brilhante que era lembrou-se de lançar a ideia de um concurso de tiro aos pombos, assim podia explicar o treino e os ruidosos tiros! O Administrador do Concelho, ingenuamente, havia logo concordado com a curiosa ideia que achava que ia trazer alguma vida social ao marasmo de Cabeceiras de Basto. Nunca lhe deve ter passado pela mais pequena ideia o que iria acontecer. Nem tão pouco ao Presidente da Câmara que decidiu viajar. Aliás a apreensão de armamento em Cabeceiras, no dia 5 de julho, não levantou suspeitas! Se calhar achavam que os pombos eram tantos...

Os padres da região uniram-se! O padre Domingos tinha o apoio dos párocos de Riodouro, o padre António Barroso Leite, de Painzela, o padre José Pina, e de Bucos, o abade Manuel Leite Araújo. Este último escondia até dezenas de espingardas Mauser atrás do altar-mor!

Em cima, os antigos Paços do Concelho de
Celorico de Basto, onde prenderam o
Administrador do Concelho. Ao centro, a
braçadeira usada pelos realistas, e a fotografia do
Administrador do Concelho. Em baixo, o verso
da bandeira monárquica, com uma estampa de
Nossa Senhora da Conceição, hasteada nos
  Paços do Concelho, pelas 10 horas e 15 minutos
da manhã do dia 6 de julho de 1912.
Clichés de Carlos Dá Mesquita.
In Ilustração Portuguesa nº 337, 5 agosto de 1912.
E após ter sabido que Paiva Couceiro iniciaria a invasão no dia 6 de julho, mandou no dia anterior oito dos seus homens cortar os fios do telégrafo e destruir algumas pontes. De madrugada ouviram-se tiros... O chefe do telégrafo havia dado conta. Pela manhã de sábado, dia 6 de julho começou o impensável! O Administrador tenta a todo o custo arranjar um carro que o levasse a Braga para avisar o sucedido, mas apenas conseguiu uma carroça puxada a cavalo, a chamada "vitória". Após vários contratempos na viagem, regressa ao final do dia com o guarda-fios para arranjar o telégrafo e alguns carbonários para fazerem frente aos monárquicos, que já haviam repelido a tiro o secretário das finanças municipal e as forças republicanas. Tiros são dados para o ar pelas tropas dos padres Domingos e José Pina, que se encontravam nos montes sobranceiros à vila, de modo a afugentar os carbonários e o Administrador que estavam na praça central, então chamada de Barjona de Freitas, hoje em dia conhecida como a Praça da República. Mais tiros são disparados e o Administrador é gravemente atingido. Foge para a casa mais próxima, do negociante José Teixeira Leite Bastos, mas não aguenta os ferimentos e morre.
A frente da bandeira monárquica hasteada nos Paços do
Concelho de Celorico de Basto.
In Ilustração Portuguesa nº 337, 5 de agosto de 1912.

Regimento de Infantaria 16 em frente ao Mosteiro de São Miguel de Refojos,
em Cabeceiras de Basto, julho de 1912.
In Reimaginar Guimarães, Coleção de Fotografia da Muralha.
A revolta alastra para os concelhos vizinhos... Entretanto em Celorico de Basto, o padre de Molares, Francisco de Almeida Barreto, manda tocar os sinos a rebate incitando a população a revoltar-se e a deter o Administrador do Concelho de Celorico, António Rodrigues Salgado. A bandeira monárquica é hasteada e por pouco o Administrador não é fuzilado! Enquanto isso, para animar o povo, sob um calor tórrido, a prima do padre distribuía uns bagaços pelos "revoltosos". Típico! O que interessa é animar a malta...

Finalmente no dia 7 de julho, num soalheiro e quente domingo, perante uma multidão o padre Domingos proclama a monarquia hasteando a real bandeira nos Paços do Concelho de Cabeceiras de Basto.
Grupo de sargentos, cabos e soldados de artilharia de montanha da "coluna
negra" com boca de fogo e munições, junto da Casa do Mosteiro, pertencente
à família do Barão de Basto. Cabeceiras de Basto, julho de 1912.
In Reimaginar Guimarães, Coleção de Fotografia da Muralha.

Durante 4 dias a vila esteve nas mãos dos padres "revoltosos" repelindo as tentativas das tropas republicanas para retomar o controlo do poder.
Em cima e ao centro, as casas do padre Domingos e irmão padre Manuel
destruídas pelos incêndios. Em baixo, à porta da cadeia, rodeados por
soldados republicanos, o padre José Pina, de Painzela e outros "revoltosos".
Cabeceiras de Basto, julho de 1912.
In Ilustração Portuguesa nº 336, 29 julho de 1912.

Mas quando o padre Domingos sabe do falhanço de Paiva Couceiro em Chaves e após Celorico de Basto e Fafe já terem sido tomadas pelos republicanos, decide abandonar a vila e refugiar-se nos montes vizinhos, na Borralha, em Salto, Montalegre. Ao saber que Paiva Couceiro havia recuado para a Galiza, manda dispersar as suas tropas. Quando os republicanos chegam a vila de Cabeceiras de Basto está deserta! As tropas republicanas dirigidas pelo comandante Sarsfield Cabral decidem ficar acampadas na praça.

Os soldados e alguns populares, como retaliação decidem incendiar a casa do padre Domingos e do irmão, o padre Manuel, no lugar da Raposeira. A mulher e os filhos ao verem as tropas a aproximarem-se fogem e escondem-se nos campos. Ao longe vêem as altas labaredas e os uivos desesperados dos seus cães a serem consumidos pelas chamas. Não houve clemência! A família escapou andado fugida durante dois dias e duas noites, dormindo ao relento onde calhava. Alberto, o filho mais novo do padre, tinha apenas um ano...

Mas os incendiários não pararam por aqui. Queimaram ainda a casa do secretário do padre Domingos, em S. Nicolau, a capela do cemitério e a casa de um comerciante que havia supostamente envenenado o vinho que as tropas republicanas beberam! Na verdade as tropas assaltaram a taberna, pois ninguém na vila lhes dava mantimentos, e eles "de língua de fora" devido ao bacalhau salgado das suas provisões, resolveram matar a sede na pipa que fora envenenada antes da sua chegada!

Tribunal Marcial de Cabeceiras de Basto, onde foram julgados
os "revoltosos" entre julho e setembro de 1912.
In Ilustração Portuguesa nº 338, 12 agosto de 1912.
O padre Domingos assistiu a tudo de perto, escondido com dez dos seus fiéis homens. Fica em Cabeceiras até às vésperas de Santiago, no dia 24 de julho, altura em que como tem a cabeça a prémio pela exorbitante quantia de 10 contos de réis, resolve fugir para a Galiza e juntar-se a Paiva Couceiro, onde finalmente o conhece pessoalmente.

Foram detidas 45 pessoas, alegadamente conspiradores e revoltosos. As casas dos simpatizantes monárquicos foram invadidas e destruído o mobiliário. Os conspiradores são levados a tribunal de guerra. O padre Domingos é julgado à revelia e condenado a 20 anos de prisão.

Partida do paquete Tucuman de Lisboa com destino ao Brasil.
Nele partiram o padre Domingos e mais 50 exilados.
Clichés de Joshua Benoliel.
In Ilustração Portuguesa nº 343, 16 de setembro de 1912.
Entretanto como Espanha, mais uma vez, não quer problemas com Portugal coloca entraves à permanência dos monárquicos portugueses. O padre Domingos decide assim partir para o Brasil juntamente com mais 50 exilados no dia 1 de setembro de 1912 no paquete Tucuman. Mas por lá não fica muito tempo e  regressa a Espanha.

Em 1919 dá-se a 3º incursão monárquica que levou à "Monarquia do Norte" proclamada a 19 de janeiro. O padre Domingos, como não podia deixar de ser, adere à revolta e ajuda a tomar Vila Real, hasteando a bandeira azul e branca a 25 de janeiro. Mas foi "sol de pouca dura" e falhou mais uma vez! Os monárquicos novamente fogem para a Galiza, incluindo o padre Domingos. E novamente é julgado à revelia e condenado a mais 20 anos de prisão.

Padre Domingos Pereira.
Fotografia gentilmente cedida pelo
bisneto António Franco.
Em 1925 regressa em segredo a Portugal e à sua querida Cabeceiras de Basto. Resolve juntar-se à família e viver o resto dos seus dias sem guerras nem revoltas, apenas queria paz. Nunca passou um dia na prisão apesar de lhe terem destinado 40 anos!

A 25 de novembro de 1945 morre em Cabeceiras de Basto. Segundo testemunho familiar, na sacristia do Mosteiro de São Miguel de Refojos vestiram-lhe a batina e colocaram-lhe o cabeção, e foi enterrado vestido de padre. Na verdade, oficialmente nunca resignou, e toda a vida foi chamado de "padre". Quis a família que assim fosse também na eternidade...

As tentativas para repor a Monarquia também elas morreram. O rei D. Manuel II nunca quis voltar por meio de um golpe militar, nunca quis que a Monarquia fosse restaurada pela força. O seu profundo amor por Portugal não permitia que fosse de outra maneira. Queria que o povo se manifestasse... Queria que Portugal o quisesse de novo...

"Portugueses, unam-se pela Pátria: sejamos fortes e mostremos ao mundo e àqueles que nos seguem atentamente com cobiça, que Portugal há-de renascer ainda, numa era de grandeza e prosperidade. Pensemos no País, sem outras ideias do que a que devemos ter sempre presente: Nascemos Portugueses, queremos reviver as glórias passadas, queremos levantar bem alto o nome de Portugal, queremos viver e morrer Portugueses!(...) Manuel Rei." 
Excerto da carta do rei D. Manuel II a Aires de Ornelas, 1919.

97 ANOS DEPOIS, NUNCA ESTAS PALAVRAS ESTIVERAM TÃO ATUAIS...

Gravação onde surge a família Real no exílio, nomeadamente D. Manuel II, a sua mãe a rainha D. Amélia, e a sua mulher D. Augusta Victória, durante uma entrega de prémios de uma corrida de carruagens em Richmond, Inglaterra.
Video da British Pathé, Richmond Royal Horse Show, 1920. In https://www.youtube.com/watch?v=vuaTG8b3N_k






Agradecimentos especiais:
Aos bisnetos do padre Domingos Pereira, Fernanda Paula Pereira e António Alberto Franco;
A Maria Fernanda Campos Carneiro, uma apaixonada sobre o assunto Incursões Monárquicas e Padre Domingos Pereira.

quarta-feira, 1 de junho de 2016

As Camélias dos Escravos - "Tinir de ferros... Estalar de açoite..."

Uma senhora em sua liteira, com os seus dois escravos, Bahia, Brasil, 1860.
Fotógrafo desconhecido, Acervo Instituto Moreira Salles.
O que é que tão delicada flor tem a ver com tão terrível condição? O que é tão terrível condição tem a ver com as portuguesas Terras de Basto? O que é que... Interrogações e mais interrogações. Na verdade, simbolicamente e historicamente terá tudo! Mas o "correr da pena" revelará a tão intrincada história, cheia de certezas, factos e também muitas suposições.

Camellia Japonica, também conhecida no norte de Portugal como "japoneira", possivelmente por ter sido trazida do Japão. No entanto, segundo alguns especialistas, é originária da China e terá sido levada para o Japão por marinheiros chineses. É descrita pela primeira vez em 1735 pelo botânico sueco Karl Von Linné que lhe deu o nome Camellia em homenagem ao também botânico e padre jesuíta Joseph Kamel, que provavelmente nunca a terá visto.
Falemos primeiro, não da senhora da liteira, mas da Senhora dos jardins das Terras de Basto, a CAMÉLIA!

Do oriente veio esta exótica planta, tão apreciada pelos chineses e japoneses, a C. Japonica como planta ornamental e a C. Sinensis como a planta do chá. Segundo a tradição, no longínquo séc. XVI, muito antes de ser chamada "camélia" e ser conhecida como "tsubaki", palavra japonesa para designar "árvore das folhas luzidias", chegou à Europa, mais concretamente a Portugal, pelas mãos dos portugueses que também se terão encantado por ela e a terão trazido do Japão. Rivalidades à parte sobre para que terra portuguesa teria vindo primeiro, há duas hipóteses, ou para Vila Nova de Gaia, para a Casa do Conde de Campo Belo, ou para Celorico de Basto, para a Casa da Cruz de Cima, vinda pelas mãos de Fernão Carvalho da Cunha Coutinho. E com o decorrer dos séculos, tornou-se Senhora e Rainha dos "Jardins de Basto", largamente apreciada no séc. XIX e difundida também pelas mãos das irmãs Ferreira Pinto Basto, criadoras de tão excelsos jardins. 

José de Seixas Magalhães, gravura de 1890.
In Revista Illustrada, nº 590, 1890, Rio de Janeiro, Brasil.
E terá sido também no séc. XIX que se espalhou por vários cantos do mundo, incluindo o Brasil. Terá chegado a estas terras por alturas do "Grito do Ipiranga", sem nenhuma relação possível, é claro! E muitos anos depois, continuando a ser uma raridade, começou a ser cultivada no Rio de Janeiro. Por quem? Por um português... Tinha de ser! Seria ele oriundo das Terras de Basto? De Celorico de Basto, a "terra das camélias"? Talvez sim ou talvez não. Do norte de Portugal seria certamente, minhoto talvez e das memórias de infância lembrar-se-ia de tão requintada flor, branca, rosa, vermelha... Que assume tantas formas e tal como a pele alva e delicada de uma dama não podia apanhar demasiado sol! Só podia ficar na memória!

O português chamava-se José de Seixas Magalhães, nascido a 13 de março de 1830, num local que permanece um mistério. Partiu em 1844, com 14 anos, como era habitual na época em busca de uma vida melhor, para o longínquo Brasil, para a "cidade maravilhosa" do Rio de Janeiro.

Anúncio da Fábrica de Malas do Seixas. Era uma fábrica muito
moderna e conceituada na época, tendo recebido diversos
prémios, nomeadamente nas Exposições Mundiais de
Viena (1873), Paris (1889), Chicago (1893) e
Rio de Janeiro (1922).
In O Besouro, 31 de janeiro de 1878, Rio de Janeiro, Brasil.
Como tantos outros ingressou na "vida comercial" e depressa ascendeu economicamente fundando a primeira fábrica de malas do império do Brasil, movida com uma inovadora máquina a vapor. Em 1860 já há notícias da fábrica estar estabelecida na Rua do Sabão, que mais tarde muda para a Rua General Câmara e depois, em 1873, para Rua de Gonçalves Dias, nº 64.

Em 1878, o rico Seixas, que também ficou conhecido como o "Seixas das Malas", resolveu investir parte do seu dinheiro nuns terrenos que haviam pertencido ao francês Charles Leblon, também ele imigrante, que havia ficado rico com a pesca da baleia, cujo óleo era usado na construção civil e na iluminação pública da cidade do Rio de Janeiro. Os terrenos eram nada mais que o hoje muito conhecido e "chic" bairro do Leblon. O Seixas comprou uma chácara de 270 hectares que iam desde o Alto Leblon até ao mar e à lagoa Rodrigo de Freitas. No alto do morro construiu a sua casa rodeada por frondoso mangueiral. Aqueles vastos terrenos já haviam sido palco de histórias tenebrosas, como a dos índios Tamoios, que lá moravam, aniquilados pela varíola a mando do governador António de Salema, em 1575, que mandou espalhar roupas infetadas para poder ficar com os terrenos livres para plantar cana-de-açúcar.
Vista atual do Leblon, no Rio de Janeiro. No local primitivo da casa
do Seixas existe hoje em dia o Clube Campestre da Guanabara.
Vista aérea, 2014, in Wikipédia.org.

E nada melhor para apagar as tristes memórias do lugar que plantar flores, muitas flores. Uma grande plantação de camélias! Teriam elas também sido importadas de Portugal? Das Terras de Basto, onde proliferavam? Talvez... Teria a moda e o gosto sido trazidos pelos muitos emigrantes portugueses, muitos da região de Basto, que por lá estavam e conviveriam com o Seixas? Talvez...

Cartaz de escravo fugido.
Rio de Janeiro, Laemmert, 1854.
Mas a sua chácara teve também outros propósitos... Albergar ESCRAVOS fugidos!

Naquele tempo, o terrível fenómeno da escravatura manchava a moderna, próspera e cosmopolita sociedade brasileira assombrada pelos interesses escravocratas dos senhores e grandes fazendeiros.

Já desde o tempo do regente padre Diogo Feijó se tinha dado um importante passo para abolir a escravatura com a lei de 7 de novembro de 1831, declarando que todos os escravos importados dali em diante eram livres. Mas a lei infelizmente nunca foi cumprida...

Augusto Gomes Leal e sua ama escrava Mónica.
Carte de visite de João Ferreira Vilela, Recife, c. 1860.
Acervo Fundação Joaquim Nabuco.
As tentativas de pôr termo ao flagelo continuaram, devido às pressões hipócritas dos ingleses, que alegando ser uma "prática desumana", na verdade apenas tinham interesses comerciais e económicos para proibir a mão de obra escrava. E assim surgiu a Lei Eusébio de Queirós, a 4 de setembro de 1850, que proibiu o tráfico de escravos, despoletada pela lei inglesa Bill Aberdeen que permitia que os barcos ingleses confiscassem os navios negreiros.

Mais tarde veio a Lei do Ventre Livre, a 28 de setembro de 1871, determinando que todos os filhos de escravos que nascessem a partir daquela data eram livres, ou ficariam com as mães até aos 8 anos de idade, altura em que o senhor poderia optar, entregar ao Estado, recebendo uma indemnização, ou ficar com a criança até à maioridade, tendo esta que trabalhar para ele, naturalmente! A caminhada para a abolição continuou com a Lei dos Sexagenários, a 28 de setembro de 1885, determinando livres todos os escravos com mais de 60 anos.
Escravos na Fazenda Quititi, em Jacarepaguá,  Rio de Janeiro, 1865.
Fotografia de Georges Leuzinger, Acervo Instituto Moreira Salles.
"Lá na úmida senzala, sentado na estreita sala, junto ao braseiro, no chão, entoa o escravo o seu canto, e ao cantar correm-lhe em pranto, saudades do seu torrão (...) Minha terra é la bem longe, das bandas de onde o sol vem; esta terra é mais bonita, mas à outra eu quero bem!". Excerto de "A canção do africano", Castro Alves, 1863.

Mas voltemos ao Seixas... Os muitos anos no Brasil, aliás também ele já era brasileiro com a naturalização feita em 1875, tinham-lhe trazido uma enorme credibilidade e notoriedade, em grande parte devido às suas amizades influentes, a maioria abolicionistas, como Joaquim Nabuco, Rui Barbosa, José do Patrocínio e João Clapp, e possivelmente também devido às suas ligações à Maçonaria. E claro, o Seixas era absolutamente contra a escravatura! Em 1869 já há notícias do seu envolvimento na fuga de uma jovem escrava baiana, de 13 anos, chamada Alexandrina. E nada melhor do que a sua nova chácara do Leblon, na época relativamente isolada e na periferia da cidade, para esconder quem fugia das grilhetas e da chibata. O Seixas arranjou para esconderijo uma caverna que existia no alto do morro, com um intrincado sistema de passagens ocultas e escondida pela frondosa vegetação. E assim nasceu um quilombo, um esconderijo de escravos fugidos, que ficou conhecido como o Quilombo do Leblon.

Gravura de Ângelo Agostini, abolicionista convicto, diretor
e fundador da Revista Illustrada.
E o que é que ele se lembrou para "matar o tempo" dos escravos que escondia? Pediu-lhes para tratarem da sua delicada plantação de camélias! E as camélias dos escravos ficaram famosas! Na verdade, este quilombo não era muito secreto! Todos sabiam o que lá se passava e nem a polícia lá entrava. Estava protegido! Não por muros ou grades mas pela influência de políticos, notáveis da sociedade e pela família imperial.

Isabel, Princesa do Brasil, s/d.
Retrato da autoria do cabeceirense Joaquim Insley Pacheco.
In Brasiliana Fotográfica.
Um caricato episódio ficou famoso, não estivesse ele ligado à estrondosa festa dos 57 anos do Seixas, onde escravos e abolicionistas festejaram à grande na chácara do Leblon! No final da festa, os convidados, em alegre comitiva, cantando e dançando, dando altas vivas aos escravos fugidos, desceram o morro até à Gávea, ao antigo Largo das Três Vendas, hoje Praça Santos Dumont, para apanharem o transporte público "caminho de ferro americano", antepassado do elétrico, por lá chamado de "bondinho puxado a burro". O escândalo foi tal, que o Barão de Cotegipe pediu ao imperador D. Pedro II para permitir que a polícia invadisse o "desavergonhado" quilombo das camélias. Mas o imperador perguntou: - "A que horas foi isso?" - "Meia noite, Magestade.", respondeu o barão. E logo o imperador colocou um ponto final no assunto dizendo: - "Tão tarde, tão tarde assim, ninguém ouviu!".

Mas a grande protagonista na defesa da abolição da escravatura foi a herdeira do trono, a princesa Isabel.

Também ela tinha um quilombo! O Palácio Imperial de Petrópolis. Segundo relatos do abolicionista André Rebouças, no dia 4 de maio de 1888 almoçavam no palácio imperial 14 escravos fugidos das fazendas vizinhas. Era uma princesa de fortes convicções! E claro que sabia também da história do Seixas! Na verdade protegeu-o também.

O Seixas enviava camélias para o Paço Isabel, frequentemente entre maio e agosto, altura da sua floração no Brasil. Com elas a princesa Isabel enfeitava o seu gabinete e capela particular. Chegou até a aparecer em público com o vestido enfeitado com as "escandalosas" camélias do Seixas. Toda a gente sabia que era um sinal abolicionista! E assim as camélias dos escravos viraram um código, um símbolo. Quem usasse na lapela uma camélia só podia ser a favor da abolição da escravatura. Quem plantasse no seu jardim uma camélia, só podia ser uma casa de um defensor de tão controversa ideia! Célebres eram também as "batalhas de flores" da princesa, uma espécie de passeata onde ela, o marido e os filhos desfilavam numa carruagem com tocadores de bombos a pedirem dinheiro para comprar cartas de alforria para escravos. Haja coragem e determinação!

A intenção dos defensores da escravatura era verem-se livres de vez do Seixas.
Deportá-lo para Portugal só podia ser o desejo e a solução para acabar com o
"desavergonhado" Quilombo do Leblon.
In Revista Illustrada nº 496, ano 13, 1888, Rio de Janeiro, Brasil.
Mas os escravocratas não facilitavam! O Seixas diversas vezes foi processado pelos donos dos escravos que ele albergava, mas os processos nunca davam em nada. A ameaça ao boicote das suas malas fez até que ele publicasse a 17 de maio de 1884 um anúncio a oferecer "ao preço da chuva" as suas malas. Estava tudo em saldo! "É uma verdadeira queima! E que malas! É cada malão."

A Lei Áurea que decretou a extinção da
escravatura no Brasil, a 13 de maio de 1888.
No dia da assinatura da Lei Áurea, o filho do
abolicionista João Clapp entrega à princesa
Isabel um ramo de camélias em nome dos escravos
do Quilombo do Leblon.
In Revista Illustrada nº 496, Ano 13, 1888,
Rio de Janeiro, Brasil.
Após uma longa caminhada e resistência, os interesses dos grandes fazendeiros apologistas da mão de obra escrava caíram por terra. A escravatura é definitivamente abolida no território do império do Brasil! É com uma pena de ouro, oferta de muitos abolicionistas, incluindo o Seixas, que a princesa Isabel, na altura regente do império, assina a Lei Áurea, a 13 de maio de 1888, libertando da escravidão mais de milhão e meio de pessoas. O Brasil foi aliás o país que mais recebeu escravos vindos de África, já desde o tempo que era colónia. O tráfico era uma atividade bastante lucrativa, para a qual Portugal também contribuiu, e muito, usando os seus territórios africanos como fonte inesgotável de pessoas.
Gravura de Ângelo Agostini alusiva ao 2º aniversário da abolição da escravatura,
representando uma alegoria à Capital Federal que atira camélias aos
promotores do evento. No canto superior direito, os abolicionistas
João Clapp e José de Seixas Magalhães.
In Revista Illustrada, nº 590, 1890, Rio de Janeiro, Brasil.

Naquele memorável dia, as camélias foram rainhas! Ramos destas delicadas flores foram oferecidos, como sinal de agradecimento, à princesa Isabel, incluindo o Seixas que a presenteou com as camélias do Leblon.

Isabel, a "Princesa das Camélias" jamais esqueceu o significado da árvore de folhas luzidias e mandou plantar no Palácio Imperial de Petrópolis tantas, tantas, tantas... Que a moda pegou! Petrópolis, a Sintra brasileira, ficou conhecida na altura como a "cidade das camélias".

Finda a escravatura, acabaram também os quilombos. Que destino dar aos 270 hectares de terra do Leblon? O Seixas, cada vez mais próspero economicamente, resolve construir um enorme hipódromo. O projeto ficaria conhecido como o "Prado do Leblon". Grandiosa festa foi dada na sua chácara sob a sombra das suas camélias para anunciar o grandioso projeto. E não ficou por aqui... Constituiu uma sociedade para urbanizar os seus terrenos da Gávea, a "Companhia Cidade da Gávea". Os seus negócios eram cada vez maiores e mais arriscados... Também ele foi fundador de um banco, juntamente com o amigo abolicionista João Clapp, o chamado "Banco do Povo" e dono, em sociedade, do jornal do Rio de Janeiro "Diário de Notícias".

Luíz da Fonseca Oliveira "Seixas".
Ingressa na fábrica de malas em 1875,
em 1888 é feito interessado,
em 1890 torna-se sócio e em
1895 único proprietário.
Regressou a Portugal, onde construiu
em Baião a sua "casa de brasileiro"
e no seu jardim plantou as simbólicas
camélias.
Fotografia gentilmente cedida
pela trineta Rita Mier.
E tal como Ícaro, tão alto subiu, que as suas "asas de cera" derreteram e caiu! Os grandes negócios, demasiado talvez, ou a má gestão empresarial levaram-no à ruína!

No dia 8 de maio de 1893 parte para Portugal no vapor Loanda, alegadamente a saúde debilitada levou-o a viajar para a Europa. Escreve de Braga, em 1894, para o seu grande amigo abolicionista Rui Barbosa, dando a morada do Campo de Santana nº 168, atual Avenida Central e "sala de visitas" da cidade dos Arcebispos.

A sua fábrica de malas, agora chamada de Fonseca Seixas & Ca. ficou entregue ao seu sócio também português, Luíz da Fonseca Oliveira "Seixas", que se tornou único dono em 1895. Este seu grande amigo, também abolicionista, que entrou como simples empregado na fábrica quis adotar o seu apelido, dando continuidade ao prestígio do nome.

Mas o fim do Seixas chegou e no limiar do séc. XX morreu em Portugal! E as suas camélias morreram com ele... Deixou todas as propriedades hipotecadas a Fortunato de Araújo Costa. Sem nunca ter casado nem ter tido filhos para herdar, e sem deixar testamento, todos os seus bens vão a leilão para pagar as muitas dívidas que deixou.

Triste fim este... Sem quase nada morreu o homem que arriscou a vida para esconder quem fugia, para os esconder do "TINIR DE FERROS" e do "ESTALAR DE AÇOITE". E fez dos escravos "jardineiros" das suas camélias que se tornaram o símbolo maior da liberdade. Quebraram-se os negros ferros! Quebrou-se o negro cativeiro! E a CAMÉLIA, a branca camélia, Rainha também nas Terras de Basto continuou todos os anos a florir... Delicada recordação de tão grosseira e triste condição.
Ex-escravos colocam ramos de camélias no retrato da Redentora, a princesa Isabel.
Capa da Revista Illustrada, nº 507, Ano 13, 1888, Rio de Janeiro, Brasil.
(De notar que a correspondência desta revista era mandada para o endereço da fábrica de malas do Seixas)

"(...) Tinir de ferros... Estalar de açoite... Legiões de homens negros como a noite, Horrendos a dançar...
Negras mulheres, suspendendo às tetas, Magras crianças, cujas bocas pretas, Rega o sangue das mães:
Outras moças, mas nuas e espantadas, No turbilhão de espectros arrastadas, Em ânsia e mágoa vãs!"

Excerto de "O Navio Negreiro", Castro Alves, São Paulo, 1868.

Visão horrífica do tráfico de escravos no séc. XIX para as Américas.
Excerto do filme "Amistad" de Steven Spielberg, 1997.

Agradecimentos especiais:
Ao historiador Eduardo Silva, da Fundação Casa Rui Barbosa e autor do livro "As Camélias do Leblon e a Abolição da Escravatura";
A Rita Mier, trineta de Luíz da Fonseca Oliveira "Seixas".