Os Mortos de Sobrecasaca

"Havia a um canto da sala um álbum de fotografias intoleráveis, alto de muitos metros e velho de infinitos minutos, em que todos se debruçavam na alegria de zombar dos mortos de sobrecasaca. Um verme principiou a roer as sobrecasacas indiferentes e roeu as páginas, as dedicatórias e mesmo a poeira dos retratos. Só não roeu o imortal soluço de vida que rebentava, que rebentava daquelas páginas."

Carlos Drummond de Andrade, Os Mortos de Sobrecasaca (Sentimento do mundo, 1940)

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

"SE O PEREIRA CÁ ESTIVESSE..." - O "Sir" de Atei que podia ter mudado a História de Portugal!


Sons... Os rodados de um landau, os cascos dos cavalos sobre a calçada, vozes, muitas vozes, muito ruído de fundo e de repente... Pum! Um estrondo, o som de um tiro abafado pelo ruído de fundo e nada... Ninguém se apercebeu do tiro! Aquele estrondo marcava o inicio da "batida às feras", começava a "caça"... No dia 1 de fevereiro de 1908, quando regressavam de uma estadia em Vila Viçosa, foram abatidos a tiro o rei D. Carlos I e o seu filho herdeiro do trono, o Príncipe Real D. Luís Filipe. Estes breves momentos, há 108 anos, do famoso regicídio marcaram profundamente a História de Portugal. Foi o início do fim de uma era... 
Desenho representando os momentos do regicídio. Capa do suplemento ilustrado "Le Petit Journal", 16 de fevereiro de 1908.
E se a história tivesse sido diferente? E se naquele fim de tarde frio no Terreiro do Paço não se tivesse ouvido nenhum tiro, não tivesse passado nenhum landau real, apenas as habituais carruagens que percorriam a velha Lisboa? Haveria alguém capaz de mudar a história? Talvez... Quem?
Manuel Augusto Pereira e Cunha.
Fotografia de Augusto Bobone - Pintor e Fotógrafo
das Casas Reais de Portugal e Espanha,
Séc. XX, início.
Fotografia gentilmente cedida pela sua sobrinha
D. Teresa Gil Pereira e Cunha.

Não vou, nem quero contar esta história, a história do regicídio! Já muita tinta se gastou para descrever o momento! Chegaram até aos nossos dias as descrições das testemunhas, incluindo a do próprio rei D. Manuel II, que estava no landau e também foi ferido num braço. O processo de investigação do caso estranhamente e convenientemente desapareceu... Ainda entregaram uma cópia ao próprio rei D. Manuel já no exílio em Inglaterra, mas quando este morreu, em 1932, o processo sumiu. Nada foi encontrado na sua casa de Fulwell Park!

Mas vou e quero contar a história de um homem das Terras de Basto, monárquico convicto, muito amigo da família real e que hipoteticamente poderia ter sido um ator decisivo numa mudança de cena, uma cena drasticamente diferente daquela tragédia! Chamava-se Manuel Augusto Pereira e Cunha.

A Casa de Barreiros, na freguesia de Atei, concelho de Mondim de Basto.
Esta Casa, uma das mais importantes casas agrícolas da região, ainda hoje
pertence à família Pereira e Cunha. Foi em meados do séc. XX profundamente
transformada com elementos arquitetónicos vindos de outras casas da região,
 incluindo a capela e a pedra de armas, que segundo Eduardo Teixeira Lopes,
terá vindo da Casa de Sub-Ripas de Vale do Bouro (LOPES, Eduardo Teixeira,
Mondim de Basto - Memórias Históricas, 2000).
Foi em 1855, no dia 15 de outubro que nasceu um menino, na Casa de Barreiros, em Atei, Mondim de Basto, no seio de uma família da pequena aristocracia rural. Manuel Augusto era filho de Joaquim António da Cunha e Silva e D. Ana Diniz Pereira. A linhagem da grande Casa de Barreiros viria do lado dos seus avós paternos, Manuel José da Cunha e Benta Alves Ferreira.

Tinha mais dois irmãos, Bento e Torcato, mas foi ele que herdou Barreiros. No entanto não ficou por muito tempo em Atei!
Assinatura de seu pai em documento de quitação de pagamento
datado de  31 de janeiro de 1876.
(nesta data, Joaquim António da Cunha e Silva já estava viúvo)
In Arquivo Distrital de Vila Real.

Menino rico, quando cresceu, em 1871 foi estudar para o liceu, em  Coimbra. E o excelente aluno ingressou na mais velha universidade portuguesa, a Universidade de Coimbra. Escolheu direito e apesar de ter sido convidado para dar aulas, no final da formatura, em 1877, não quis! Queria experimentar a política!

Claro que para isso não bastava ter dinheiro, era preciso ter influência, era preciso ter amigos de peso! Na faculdade já tinha alguns... O poeta António Cândido, o Conde de Monsaraz, D. Francisco de Vieira e Brito, futuro Bispo de Lamego...

A família real portuguesa. O rei D. Carlos I ladeado pela rainha D. Amélia e a
sua mãe, a rainha viúva D. Maria Pia. Em baixo, ao centro o seu irmão o infante
D. Afonso, ladeado pelo Príncipe Real D. Luís Filipe e o futuro rei D. Manuel II.
Como membro do Partido Regenerador foi eleito deputado pelo círculo de Cabeceiras de Basto, depois Administrador dos concelhos de Mondim de Basto e Vila Real e secretário dos Governos Civis da Horta e de Santarém. A 27 de janeiro de 1890 é convidado para Governador Civil de Faro, depois do Porto e finalmente de Lisboa no final do ano de 1901. Terá sido, possivelmente, nos 4 anos que se seguiram, altura em que ocupou este cargo que se terá aproximado mais da corte e da família real.

A amizade entre Manuel Augusto Pereira e Cunha e o seu rei era tão grande... Quase idolatração! A consideração que o rei tinha por ele era enorme. Tinha-o como um ótimo conselheiro e um verdadeiro amigo. Chamava-lhe o "Pereira"...

O rei D. Carlos e o irmão, o infante D. Afonso,
durante um torneio de florete
na Tapada da Ajuda, em Lisboa.
 Uma das raras fotografias em que o rei
 aparece a sorrir e numa pode descontraída,
 com o seu inseparável charuto na mão.
Fotografia de Joshua Benoliel, 1907.
Apesar de tudo, apesar da sua aproximação ao rei, nunca aceitou nenhum título. Penso que não queria ser mais um barão, mais um visconde... "Foge cão que te fazem...". Bem, talvez uma comenda não fizesse mal... Em 1903 o rei agracia-o com a Comenda e a Grã-Cruz da Ordem de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa e no ano seguinte com a Grã-Cruz da Ordem de Cristo.

Terço oferecido a Manuel
Augusto Pereira e Cunha
pelo Papa Pio X
(Pontificado 1903-1914)
O seu grande amigo, o ministro Hintze Ribeiro, chefe do partido Regenerador várias vezes o convidou para ministro, mas ele não quis... Já era Par do Reino, também foi secretário do Ministério do Interior, para quê mais honrarias? Era um homem simples, que nunca procurou fama. E realmente não a teve... Deve ter sido por isso que o tempo encarregou-se de o esquecer!

Em abril de 1903 o rei Eduardo VII de Inglaterra visita oficialmente Portugal.

Fotografia tirada após um almoço oferecido ao rei inglês, no Palácio da Pena. Ao centro, sentados, estão o rei D. Carlos e Eduardo VII. Cliché A. Novaes.
Recepção ao rei Eduardo VII, no Terreiro do Paço. Lisboa, abril de 1903.
D. Carlos mandou preparar uma enorme recepção para o seu primo inglês. E por ocasião desta visita Eduardo VII resolveu agraciar o então Governador Civil de Lisboa com o título de SIR e de Grande Oficial da Ordem do Nilo. O ilustre de Atei tornou-se assim em Sir Manuel Augusto Pereira e Cunha. Não quis ser um barão português e virou um Sir inglês!

A grande pirâmide e a esfinge em Gizé, Egito.
Fotografia do séc. XIX.
Um dia fartou-se da política! Deixou tudo... O seu país, a sua família, a sua querida Atei, a corte e os seus grandes amigos, o casal real D. Carlos e D. Amélia. Foi para o Egito! No dia 15 de dezembro de 1903 aceita o cargo de juiz do Tribunal de Mausourah. E ficou naquele país por mais de 20 anos. Aquela cultura antiga encantou-o! Aliás desde o séc. XIX que o Egito e toda aquela cultura ancestral estava na moda, a moda das viagens, das caças aos tesouros e relíquias, das grandes escavações arqueológicas, das múmias...

Bento da Cunha e Silva com a sua mulher
D. Maria Engrácia Machado e Moura e a filha mais
velha, D. Amélia Maria Machado e Cunha.
Séc. XX, anos 10.
Créditos fotográficos de GOMES, Joaquim da Silva,
Conselheiro Pereira e Cunha,
Jurista e Político 1855 - 1837, 2007.
Em Atei, a administrar os seus bens ficou o seu irmão, Bento da Cunha e Silva, casado com D. Maria Engrácia Machado e Moura, da Casa da Quinta da Dónega, também em Atei, e neta do também famoso e muito rico, o Conde de Alves Machado. Também ela foi uma ajuda essencial, habituada a gerir a casa e a tomar conta dos seus irmãos mais novos após a morte precoce de sua mãe, D. Amélia Alves Machado, filha do conde.

Postal ilustrado da Rua da Estação de Ramleh.
Alexandria, Egito, 1903.
A 22 de janeiro de 1907 parte para a cidade de Alexandria para ocupar o cargo de juiz do tribunal daquela cidade. E não, o Egito não era só pirâmides, templos, túmulos e areia! Alexandria era uma cidade muito cosmopolita, com arquitetura de feições europeias, talvez a mais ocidentalizada do Egito. Manuel Augusto Pereira e Cunha sentiu-se verdadeiramente em casa, naquela famosa cidade, fundada por Alexandre O Grande onde existiram duas das mais conhecidas maravilhas do mundo antigo, o Farol e a Biblioteca de Alexandria. Aliás alguns anos antes, em 1900, havia sido descoberta outra das sete maravilhas, as Catacumbas de Kom El Shoqafa.

Em 1908 dá-se o regicídio! Manuel Augusto Pereira e Cunha estava longe... A notícia caiu-lhe como uma bomba! Foi um enorme desgosto ver assim desaparecer o seu rei, o seu amigo, aquele que tanto admirava. Um duro golpe que o marcou profundamente. Quem lhe dera ter podido impedir de alguma forma aquela tragédia. Será que podia? Segundo palavras da própria rainha D. Amélia, SIM! Consta que a rainha terá dito uma frase que ficou para a posteridade...

 "Se o Pereira cá estivesse, não tínhamos feito esta viagem!".
O rei D. Manuel e a sua mãe, a rainha viúva D. Amélia,
rodeados pelos seus cães no Palácio da Pena.
Sintra, 1909.

Manuel Augusto Pereira e Cunha
In Ilustração nº 314, 10 janeiro 1939.
Segundo a rainha, e dada a perigosa conjuntura na época, pois alguns dias antes, a 28 de janeiro, já tinha havido uma tentativa de revolução, se o "Pereira" lá estivesse com eles em Vila Viçosa e porque era considerado uma pessoa sábia, sensata e muito ponderada, tinha aconselhado o rei a não vir para Lisboa naquele dia! Talvez devesse ter esperado um pouco, alguns dias, até a "poeira assentar"... O rei teria certamente ouvido e acatado o conselho do "Pereira"! E também a rainha, pois ela queria à força vir embora para Lisboa naquele fatídico dia. "Só se eu quebrar uma perna é que não volto para Lisboa no dia 1 de fevereiro!", disse ela ao filho D. Manuel, dias antes quando este voltou sozinho para a capital por causa dos estudos de preparação para a Escola Naval.

O que é certo é que Manuel Augusto Pereira e Cunha não estava lá, não os aconselhou e o atentado premeditado aconteceu. Nem o atraso provocado pelo descarrilamento que aconteceu na Casa Branca, com o comboio real que os trazia de Vila Viçosa impediu a tragédia!  Ou também faria parte do plano do atentado? O rei e o seu herdeiro morreram, subiu ao trono o filho mais novo D. Manuel e reinou apenas por mais dois anos. O fim anunciado de 800 anos de monarquia ficou escrito naquele dia!

Anel oferecido  pelos seus
colegas e amigos do Tribunal
de Alexandria quando se
veio embora para Portugal.
Manuel Augusto Pereira e Cunha, longe no Egito, recebe a notícia da proclamação da República a 5 de outubro de 1910, e a tristeza de saber que a família Real parte para o exílio rumo a Gibraltar. No entanto, vai mantendo o contato com eles através de correspondência trocada com a rainha D. Amélia.

Fica no Egito até 31 de janeiro de 1925, altura em que resolve abandonar o cargo de Presidente do Tribunal de Alexandria. Quis regressar à sua querida Atei e descansar. Naquelas terras do norte de África deixou muitas saudades... Foi um juiz tido como sábio e extremamente rigoroso. Diz-se que as suas sentenças nunca tiveram apelação!

Manuel Augusto Pereira e Cunha rodeado pelas mulheres da família na sua Casa de Barreiros, em Atei.
Fotografia gentilmente cedida pela sua sobrinha D. Teresa Gil Pereira e Cunha.
D. Maria Engrácia Machado e Moura com os filhos,
D. Ana Maria Machado e Cunha, Joaquim Machado
Pereira e Cunha e Amélia Maria Machado e Cunha.
Séc. XX,  final da década de 20.
Fotografia gentilmente cedida por D. Teresa Gil Pereira e Cunha,
filha de Joaquim Machado Pereira e Cunha.
De volta a Atei, à sua propriedade de Barreiros, vive os seus anos de velhice descansados, sem problemas de maior, apenas contemplando o melhor da natureza... O chilrear dos melros na primavera, o regresso do verde intenso que cobre a paisagem com a chegada dos primeiros dias quentes... Acompanha também de perto as atividades agrícolas nas suas propriedades, mas é ao seu sobrinho Joaquim Machado Pereira e Cunha, filho do seu irmão Bento, que resolve deixar em herança os seus bens, a sua amada Casa de Barreiros. Afinal Manuel Augusto Pereira e Cunha nunca havia casado nem tido herdeiros, pelo menos oficialmente! O seu sobrinho, futuramente conhecido como o "Morgado de Barreiros" assume na maioridade a gestão de todas as propriedades. E é este ramo da família que perdura no tempo na velha Casa de Barreiros. O "Morgado de Barreiros", também conhecido popularmente por "Pereira e Cunha" vem a casar com D. Maria José Sottomayor, da Casa do Reguengo, em Celorico de Basto. O casamento infelizmente foi curto e volta a casar em segundas núpcias com D. Maria Cacilda de Matos Gil, de uma família riquíssima de Santo Tirso. Chamavam-na  a "Senhora de Barreiros".
Manuel Augusto Pereira e Cunha (de guarda-chuva na mão) rodeado por proprietários e agricultores de Atei.
Séc. XX, década de 30.
Fotografia gentilmente cedida pela sua sobrinha D. Teresa Gil Pereira e Cunha.
Placa colocada nas arcadas do Terreiro do Paço, em Lisboa, no local
exato onde ocorreu o regicídio, por ocasião do seu centenário.

Sir Manuel Augusto Pereira e Cunha morre a 19 de janeiro de 1937 na Casa de Barreiros. Curiosamente o seu último desejo foi ser sepultado com os retratos dos seus queridos amigos, o rei D. Carlos e a rainha D. Amélia, na altura ainda viva. E "seja feita a vossa vontade"... Sobre o seu caixão foram colocados os retratos Reais. E lá permanecem, no jazigo do cemitério de Atei, sete palmos abaixo de terra, juntos para toda a eternidade.


Que saudades sentia ele do seu rei! Quem lhe dera ter impedido aquele desfecho terrível, aquela dor da sua rainha, a dor de uma mulher, de uma mãe, a dor de uma nação adormecida e apática! Mas não impediu, nem ele, nem ninguém! Infelizmente ninguém advinha o futuro, acho eu! Uma coisa é certa, ninguém volta atrás no tempo! Porque se voltasse uma simples ação, algumas simples palavras poderiam mudar radicalmente o futuro.

Fotografia gentilmente cedida
por D. Teresa Gil Pereira e Cunha.

Video  do Expresso Online "Viagem ao dia do regicídio", contado pela investigadora Margarida Magalhães Ramalho. In www.youtube.com



E SE O PEREIRA LÁ ESTIVESSE? E SE...



"Escrever: Escrever para não gritar: Para não perder a razão - sim, para não perder a razão. Para expulsar; por um instante que seja, as terríveis imagens deste dia, e suportar o longo horror desta noite, a primeira de todas as que estão para vir. Escrevo para mim. Escrevo para não enlouquecer..."

Palavras da rainha D. Amélia no "Diário de Dona Amélia de Orleães e Bragança" alusivo ao dia do Regicídio.






Agradecimento especial:
A D. Teresa Gil Pereira e Cunha, sobrinha-neta de Manuel Augusto Pereira e Cunha, que tão gentilmente se disponibilizou para ajudar.

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

O COMENDADOR - Fidalgo do Eirô e "brasileiro" do Caboclo...

Retrato do Comendador Alfredo Pinto Coelho ainda jovem.
Séc. XX, início.
Fotografia gentilmente cedida pelo neto Alfredo Simões
Pinto Coelho.

"A ingratidão é o imposto cobrado à generosidade."

Carlos Drummond de Andrade


Esta frase de um conhecido poeta brasileiro é o mote para falar de um dos homens mais generosos do seu tempo por Terras de Basto e que o tempo se encarregou de esquecer ou não relembrar na proporção do seu altruísmo... O seu nome era Alfredo da Graça de Matos Pinto Coelho, também conhecido como Comendador Alfredo Álvares de Carvalho. Mas as confusões dos apelidos ficam para mais adiante...

Na linha temporal recuemos quase 150 anos...

O Assassínio de Inês de Castro.
Óleo sobre tela, Karl Briullov, 1834.
Museu Estatal Russo, São Petersburgo, Rússia.
Em Mondim de Basto, a 9 de fevereiro de 1869 nascia um menino de uma família com considerados pergaminhos, cuja madrinha de batismo foi Nossa Senhora da Graça, venerada no alto do imponente Monte Farinha. Era filho de Bernardo Gonçalves de Matos, de Atei, Mondim de Basto e de D. Maria do Patrocínio Pinto Coelho de Moura Teixeira, da vila de Mondim de Basto. Era pelo lado da sua mãe que lhe corria o "sangue azul" dos Pinto Coelho, Senhores de Felgueiras e do Paço de Simães, cuja linhagem ia até ao famoso antepassado medievo Egas Moniz, o aio do primeiro rei de Portugal, D. Afonso Henriques. Nobre família cheia de história e histórias ao longo dos séculos, nas quais se incluía a de outro antepassado, Pero Coelho que viveu no séc. XIV e que foi um dos implicados no assassinato da também famosa Inês de Castro. Este avoengo do Comendador não teve um final feliz, o rei D. Pedro I com sede de vingança mandou executá-lo de uma forma brutal, proporcional ao amor que o rei sentia por Inês de Castro. Mandou arrancar o seu coração pelo peito e depois queimar o corpo!

A vila de Mondim de Basto nos anos de 1915/1917.
Largo fronteiro à antiga Câmara Municipal, atual Largo do Conde de Vila Real.
Na fotografia de baixo, do lado esquerdo consegue-se ver parte do portal
da Casa do Eirô de Baixo, antes de ser remodelado pelo Comendador.
Postais ilustrados, Edição de José Teixeira Torres, circulados em 1917.
A sua nobre família tinha ramificações em várias Casas da vila de Mondim, a Casa do Balcão, da Costa, do Atalho, da Igreja e do Casal. E claro, as Casas do Eirô, a de Cima e a de Baixo! Parece que as ligações a esta Casa terão vindo pelo lado do seu avô materno, o Dr. José Pinto Coelho de Athayde de Portugal e Castro, que havia casado com uma senhora da Casa do Eirô de Cima, a D. Delfina Bárbara de Moura Teixeira Moreira.

Casa do Eirô de Baixo, onde viveu o Comendador Alfredo Pinto Coelho. Atualmente é o edifício da Câmara Municipal de Mondim de Basto. Esta casa pertenceu à família Pinto Coelho até à década de 70, do século passado, altura em que a família a vendeu ao município. Terá sido alvo de profundas reformas possivelmente no final da década de 10 ou durante a década de 20 do séc. XX, por iniciativa do Comendador, incluindo o portal, que apresenta o brasão com as armas dos Pinto, Ataíde, Coelho e Castro. Este brasão, assim como a estatuária serão mais antigos à reforma do séc. XX e, possivelmente, poderão até ter vindo da Casa da Costa, também da família, onde está atualmente a Misericórdia de Mondim de Basto. Este portal terá sido inspirado no portal do Paço de Simães, em Felgueiras, intimamente ligado à família Pinto Coelho.
Mas foram as ligações com outra conhecida família de Mondim de Basto, os Álvares de Carvalho, da Casa da Igreja que lhe ditaram o destino! O seu pai havia casado em segundas núpcias com Filomena de Assunção Álvares de Carvalho, uma irmã de outro comendador, José Augusto Álvares de Carvalho, o chamado "Comendador da Igreja", com grandes negócios no Recife, Brasil e considerado por alguns o homem mais rico de Pernambuco, no seu tempo! Emigrou apenas com 14 anos para o Brasil e construiu um império! E é com este "Comendador da Igreja" que Alfredo Pinto Coelho vai trabalhar.
Vista dos arrecifes, formações rochosas naturais
 que deram o nome à cidade do Recife.
Recife, Pernambuco, Brasil, Augusto Stahl, 1875.
Acervo Instituto Moreira Salles, in Brasiliana Fotográfica Digital.

Em 1891 ruma no vapor para o Brasil, para o Recife, capital de Pernambuco. Dinheiro não seria a razão certamente, era um emigrante especial! Quando chega ingressa na empresa do irmão da madrasta, a firma Álvares de Carvalho.

Era uma empresa enorme, conceituadíssima, fundada em 1851 por Joaquim Ferreira de Araújo Guimarães. Eram grandes importadores e retalhadores de ferragens, cutelarias e armas, com enormes depósitos de ferro, aço, cobre, latão e chumbo. Tinham uma loja icónica no centro da cidade, na Rua Duque de Caxias nº 86 chamada os Armazéns Caboclo. O curioso nome advinha de uns antigos sócios portugueses, da firma Ferreira Guimarães & C. que entraram em 1864 e que tinham a pele morena. Ora no Brasil os índios eram chamados de caboclos, nome algo injurioso por ventura, mas a cor exótica da pele dos sócios deu assim o nome aos armazéns, que ficou e perdurou no tempo, mesmo quando saíram os "caboclos" portugueses, em 1884 e entraram na sociedade o então já referido José Augusto Álvares de Carvalho, o "Comendador da Igreja", e Rodrigo Lopes de Oliveira, mudando o nome da firma para Álvares de Carvalho.

Vista da cidade do Recife, com o alto prédio dos Armazéns Caboclo em primeiro plano. Alusivo ao curioso nome encontram-se a decorar a fachada estátuas de índios. Ao fundo da rua vê-se a famosa Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos.
Postal ilustrado, séc. XX, década de 20.
Alfredo Pinto Coelho começou primeiro como interessado, depois gerente e em 1896 torna-se sócio em exclusivo com o "Comendador da Igreja". Mas as relações foram além das profissionais e casou com a sua filha mais velha, D. Beatriz Augusta Álvares de Carvalho.

Este casamento durou pouco... A sua jovem mulher morre de parto, não deixando descendência. Mais tarde casa novamente com a brasileira D. Flora Isabel de Carvalho. Segundo um familiar terá sido um casamento arranjado que não lhe trouxe amor, vivendo vidas separadas, unidos apenas no formal papel!

O Comendador Alfredo Pinto Coelho, sentado ao centro, rodeado por familiares da Casa da Igreja. Sentada, do lado esquerdo está a sua sobrinha, D. Maria do Patrocínio. Década de 20 do séc. XX.
Fotografia gentilmente cedida por Luís Jales de Oliveira.
Anuncio dos Armazéns do Caboclo, onde aparece o
Comendador ladeado pelos sócios e interessados.
In Jornal do Recife, 1 de janeiro de 1929.
Em 1908 o sogro volta para Portugal e deixa a sociedade unicamente para Alfredo Pinto Coelho. Novos sócios são admitidos... Mas é com a 1ª Grande Guerra Mundial que a firma Álvares de Carvalho ganha novo fôlego, através do negócio do ferro e do armamento. A desgraça de uns foi a sorte de outros! E Alfredo Pinto Coelho fica cada vez mais rico, rico, rico... E muda o nome! Acrescenta aos seus apelidos "Álvares de Carvalho", o nome da sua firma, da sua primeira mulher e do seu sogro. Passa a ser conhecido como Alfredo Álvares de Carvalho! Como se de uma operação de marketing se tratasse a sua nova imagem "esquece" as centenas de anos de história dos Pinto Coelho! A pessoa funde-se com a marca... Era certamente uma pessoa de visão, muito à frente do seu tempo! E de FIDALGO PASSA A "BRASILEIRO", O DO CABOCLO!
Condecorações atribuídas a
Alfredo Pinto Coelho,
         o Comendador Benemérito.           

Mas a riqueza não lhe subiu à cabeça, apenas lhe aguçou a sua maior qualidade, a generosidade! Qualidade essa que pelas suas muitas ações como benemérito lhe deu o titulo de COMENDADOR, da Ordem de Cristo e da Ordem da Benemerência, pelos serviços prestados à comunidade brasileira, principalmente a de Pernambuco, e à comunidade portuguesa, a da sua terra natal, Mondim de Basto. Os anos 20 e 30 são o auge!

Diploma de sócio benemérito do Gabinete Português de Leitura
atribuído ao Comendador a 18 de janeiro de 1925.
Em Pernambuco era adorado. A todos ajudava... Foi um grande apoio do Real Hospital de Beneficência Português, no qual foi provedor por mais de 20 anos e muitas doações lhe fez. Há aliás na imprensa da época uma notícia de uma viagem que fez à Europa para visitar outros hospitais para ver como podia melhorar aquela instituição pernambucana. Mas não ficou por aqui... Foi também um grande benemérito do Gabinete Português de Leitura do Recife, do Clube Português, do Circuito Católico de Pernambuco, presidente do Banco do Povo e mais, e mais... Quando o Comendador chegava de viagem de Portugal havia sempre uma enorme comitiva para o receber!

Mas era pela sua terra natal e pelos seus que dava tudo!

A rural vila de Mondim de Basto nos anos de 1915/1917.
Postal ilustrado, edição de José Teixeira Torres, circulado em 1917.
Estampa de Nossa Senhora da Graça, mostrando como fundo
o Santuário no alto do Monte Farinha, vulgarmente conhecido
como Alto da Senhora da Graça.
Edição Lito. Nacional - Porto, Década de 30/40 do séc. XX.
Naquele tempo a vila de Mondim de Basto era mínima, não é que hoje seja muito grande, mas... E à pequenez juntava-se uma extrema pobreza, um extremo isolamento, mais rural era difícil! Mas o Comendador tentou e conseguiu mudar um pouco tão malfadada condição. As suas obras foram muitas... E todas pagas do seu bolso!

Imagine-se que no final dos anos 20 a vila ainda não tinha água canalizada e foi o Comendador que a trouxe, direitinha do Monte da Senhora da Graça. Ainda hoje essa água serve a parte antiga da vila! Mas muito mais houve... Muitas doações em dinheiro para os bombeiros e a banda de música, restauros da igreja matriz, da Capela do Senhor, construção da residência paroquial, transladação e reconstrução da Capela da Senhora da Piedade, que estava no cemitério e clara, a obra para a sua madrinha, a Nossa Senhora da Graça... Pagou o restauro do santuário, ofereceu várias imagens e reconstruiu a Casa do Ermitão e edifício de apoio aos peregrinos, que havia ardido durante um arraial de São Tiago.

O Comendador  ladeado por várias mulheres a comemorar o restauro do Santuário de Nossa Senhora da Graça.
Tirada no Santuário de Nossa Senhora da Graça, Mondim de Basto, década de 30 do séc. XX.
Fotografia gentilmente cedida por Luís Jales de Oliveira.
Antiga Rua do Costa Liberal, vendo-se ao fundo
a Casa da Costa antes de ser reconstruída.
Atualmente encontra-se lá o edifício da
Santa Casa da Misericórdia de Mondim de Basto,
e Lar de Idosos. Imagem de 1915/1917.
 Postal ilustrado, edição de José Ferreira Torres, circulado
 em 1917.
Também foi um dos maiores beneméritos do Seminário de Vila Real, e claro o Bispo agradecia! Tanto era que quando o Comendador chegava do Brasil, era o próprio Bispo de Vila Real que vinha recebê-lo a Mondim de Basto, com uma enorme multidão ao som da banda de música! Ficou para a memória, um quarto na Casa do Eirô de Baixo chamado o "quarto do Bispo" destinado apenas aquela eclesiástica figura.

Diploma de Irmão Honorário nº 1 da Santa Casa
 da Misericórdia de Mondim de Basto, atribuído
ao Comendador a 1 de outubro de 1936.
Foi também o fundador da Santa Casa da Misericórdia de Mondim de Basto, em 1935 à qual doou a sua Casa da Costa e quinta anexa para o sustento, assim como uma grande quantia em dinheiro e parte das rendas de vários edifícios que tinha no Recife. Pode-se dizer que as suas máximas também eram as obras da Misericórdia, "dar de comer a quem tem fome", "dar de beber a quem tem sede"...

Estátua "A Primavera" oferecida pelo Comendador
Alfredo Pinto Coelho à sua vila.
Largo do Conde de Vila Real, Mondim de Basto.
A Estátua da Liberdade, oferecida pela França aos
Estados Unidos da América, com o retrato do
autor, Fréderic Auguste Bartholdi e
inaugurada a 28 de outubro de 1886.
Em baixo, a fonte do mesmo escultor em Washington
com estátuas de morfologia idêntica à "Primavera".

Mas procurou também embelezar e trazer um toque mais cosmopolita para a sua rural vila. Ofereceu-lhe uma original estátua em bronze, algo do género da Estátua da Liberdade! Só que esta foi batizada de "Primavera". O mistério da estátua ainda hoje permanece! Terá sido comprada a um sucateiro no Recife, após um leilão de armas da 1º Grande Guerra Mundial, trazidas de França, que o Comendador havia ganho e como bónus o sucateiro mostrou-lhe a estátua, que também tinha a mesma origem das armas. O sua autoria é desconhecida, mas... Será do francês Fréderic Auguste Bartholdi, autor da famosa Estátua da Liberdade? Será da sua oficina, de um seu discípulo? Ninguém sabe, mas o que é certo é que apresenta algumas semelhanças com outros seus trabalhos. De que região de França terá vindo? Possivelmente foi vendida após as destruições causada pela 1ª Grande Guerra, e o tema da Liberdade é recorrente em França, aliás também a Marianne, personificação da figura da República Francesa é apresentada a segurar a tocha da Liberdade. É um mistério que permanece. Esta "Marianne" batizada de "Primavera" foi colocada em frente da Casa do Eirô de Baixo, onde ainda permanece, a 1 de dezembro de 1932.
O Comendador com a companheira Maria Rosalina
Pires dos Reis durante uma viagem ao Buçaco em 1934.
Fotografia gentilmente cedida por Luís Jales de Oliveira.

Mas a vida social e pessoal do Comendador também deu que falar! Já na casa dos 60 e tal anos conheceu em Mondim de Basto uma jovem que o deslumbrou e que foi o amor da sua vida! A separá-los, 46 anos de diferença de idade e uma condição social radicalmente oposta! Este seu novo amor chamava-se Maria Rosalina Pires dos Reis. Morava na Rua Velha e era filha de Francisco dos Reis e Cândida Pires. Nasceu a 18 de maio de 1915 e pertencia a uma família bastante humilde. Que escândalo! Um fidalgo, de uma família tão conhecida e conceituada, riquíssimo, casado ainda e a namorar com uma jovem senhora! O que as bocas calavam, as mentes todas falavam. Ninguém tinha coragem de o criticar, uns porque achavam que era uma excelente pessoa, outros porque lhe deviam tanto e outros ainda porque lhe queriam tanto (dinheiro)! O que é certo é que o seu casamento com Flora, a brasileira, nunca foi além do papel e ele nunca se quis separar dela, mas ainda assim todos sabiam da vida uns dos outros e todos aceitavam naturalmente! E assim foi...

Viveu maritalmente com Maria Rosalina na sua Casa do Eirô de Baixo e teve quatro filhos, os seus únicos descendentes, devidamente reconhecidos, apesar de nunca ter casado com a sua companheira. Nasceram dois rapazes e duas raparigas, Alfredo, Maria do Patrocínio, Maria de Lourdes e Artur.

O Comendador Alfredo Pinto Coelho, mais velho,
na década de 30 do séc. XX.
Fotografia gentilmente cedida pelo seu neto Alfredo
Simões Pinto Coelho.
Maria Rosalina acompanhava-o frequentemente nas suas viagens ao Brasil e era como esposa que era apresentada e reconhecida. Flora ficou esquecida, sem nunca ter sido lembrada... A família do Comendador nunca se terá conformado, pelos menos as duas irmãs "solteironas" que moravam na Casa do Eirô de Cima, paredes meias como o de Baixo sempre com sorrisos amarelos para a sua "cunhada" durante a vida do comendador e que depressa se tornaram semblantes fechados após o seu desaparecimento. Ainda há quem se lembre do "muro da vergonha" que foi construído após a morte do Comendador para separar os dois Eirôs. Assim as Senhoras Pinto Coelho não tinham de ver a mulher escolhida e os herdeiros legítimos  do Comendador.

É tão fácil criticar... Mas as suas ações valeram por tudo e abafaram as invejosas palavras que possam ter sido ditas e muito pensadas. Muitas famílias de Mondim lhe devem, muitos foram os que ele deu trabalho numa terra sem nada para dar, levava-os às suas custas para o Brasil e iam trabalhar para a sua firma Álvares de Carvalho. Bastava pedir e ele dava a mão! Ainda há quem se lembre das esmolas da Casa do Eirô! Era um dia por semana que os pobres faziam fila à sua porta para receber uma bandeja de moedas que lhes era sempre dada sem falta.

Jazigo do Comendador e família mandado construir
por ele no cemitério de Mondim de Basto.
Tudo isto durou até 11 de setembro de 1942, altura em que o Comendador morre no Porto com a idade de 73 anos. Em testamento deixou os seus bens do Brasil à sua legitima mulher, Flora e a muitos mais amigos, e à companheira e filhos os seus bens em Mondim de Basto. Pediu ainda que lhe fosse rezada todos os meses uma missa pela sua alma. E o pedido foi cumprido... Na Capela da sua Casa era sempre rezada missa e no final a família dava sempre a esmola a todos os pobres, como ele gostava. E assim foi assim até um dia...

Na capela já não há missa, na casa já não há família! Já não se ouve a banda de música nem o tilintar das moedas nas bandejas... SILÊNCIO é tudo o que resta, um silêncio que percorre todas as ruas da vila. Ainda assim uma voz, não sei, algo, teima em lembrar que o mais nobre dos gestos não pode ser esquecido, pois tal como diz o poeta e nunca é demais repetir...

"A ingratidão é o imposto cobrado à generosidade."

Carlos Drummond de Andrade


O neto do Comendador, Alfredo
Simões Pinto Coelho com a sua avó
Maria Rosalina Pires do Reis,
carinhosamente chamada de
"Avó Lina".
Mondim de Basto, 2001.
Agradecimentos especiais:

Ao neto do Comendador, Alfredo José Simões Pinto Coelho pela sua enorme generosidade em me ajudar nesta hérculea tarefa;

A Luís de Jales de Oliveira pela cedência de algumas fotografias do seu acervo particular.

quarta-feira, 6 de julho de 2016

A Revolta dos Padres - O Padre Guerreiro de Basto por "DEUS, PÁTRIA E REI"

O que leva os "homens de Deus" a pegar em armas e lutar? A lutar, segundo o lema monárquico, por Deus, pela Pátria e pelo Rei! E o que leva um homem a manter-se fiel até ao fim da sua vida pelos seus ideais e nada, nem ninguém o demovendo, apesar das agruras que tudo isso trouxe a si e à sua família?

Esta é história da Revolta dos Padres durante as incursões monárquicas e de um dos seus líderes mais carismáticos, o padre Domingos Pereira.


Tropas republicanas em Cabeceiras de Basto, junto ao Mosteiro de São Miguel de Refojos, durante a 2ª Incursão Monárquica. No canto esquerdo, o líder da revolta realista de Cabeceiras, o padre Domingos Pereira.
In Ilustração Portuguesa nº 336, 29 de julho de 1912.


Rei D. Manuel II, o Patriota (1889-1932).
Fotografia de W. S. Stuart, autografada e tirada no exílio, 
em Richmond, Inglaterra, 1915.

"(...) Forçado pelas circunstâncias, vejo-me obrigado a embarcar
no "iate" real "Amélia". Sou português e sê-lo-ei sempre.
Tenho a convicção de ter sempre cumprido o meu dever de rei
em todas as circunstâncias e de ter posto o meu coração
e a minha vida ao serviço do meu país. Espero que ele,
convicto dos meus direitos e da minha dedicação,
o saberá reconhecer. Viva Portugal! (...)
Sempre muito afectuosamente, Manuel
"Iate" real "Amélia", 5 de Outubro de 1910".
(declaração do rei antes de partir para o exílio, 
para ser entregue ao presidente do governo Teixeira de Sousa).
"Ó Pátria, Ó Rei, Ó Povo,
Ama a tua Religião
Observa e guarda sempre
Divinal Constituição

Viva, viva ó Rei
Viva a Santa Religião
Vivam Lusos Valorosos
A feliz Constituição (...)"

Assim começa o Hymno da Carta, escrito por D. Pedro IV e hino nacional de 1834 até 1910, o derradeiro fim de quase 800 anos de monarquia. E assim começa também esta história, no dia 5 de outubro de 1910...

Pelas 11 horas da manhã após um golpe militar é hasteada a bandeira verde e vermelha nos Paços do Concelho de Lisboa e proclamada a República. À tarde, a família Real que se havia refugiado no Palácio de Mafra desloca-se para a praia da Ericeira, onde a bordo do iate real Amélia, parte para o forçado exílio, rumo a Gibraltar. Nele seguem o último rei de Portugal, D. Manuel II, a sua mãe a rainha D. Amélia, a sua avó a rainha D. Maria Pia e o seu tio o infante D. Afonso. Apenas D. Amélia voltaria a Portugal 35 anos depois! D. Manuel II voltaria antes, em 1932... Mas desta vez morto, com autorização de Salazar para ser sepultado no Panteão Real da Dinastia de Bragança, no Mosteiro de São Vicente de Fora, em Lisboa.
Henrique Mitchell de Paiva Couceiro.
(1861-1944)
Foi o chefe dos realistas e responsável
pelas várias incursões monárquicas
entre 1911 e 1919 que visavam
restaurar a Monarquia em Portugal.
Fotografia do acervo familiar.

No dia seguinte à implantação da República, muitos foram os que se tornaram de repente republicanos... Há que dançar conforme a música, já diz o ditado! No entanto apesar do novo regime ser aceite com relativa passividade, principalmente nas grandes cidades, muitas foram as tentativas para restaurar a Monarquia e perturbar os planos da República. E a encabeçar os agora chamados "revoltosos" e "realistas" estava o líder Paiva Couceiro. E no meio de tantos novos "fora-da-lei" estavam nada mais, nada menos do que muitos PADRES!

Os sacerdotes, que haviam jurado dedicar a sua vida a Deus e a bem do próximo, resolveram juntar-se em jeito de cruzada contra os novos infiéis e inimigos da Santa Religião, os republicanos! Amadurecidas no seio das Lojas Maçónicas e da Carbonária, já vinham de longe as intenções de mais uma vez quebrar a Igreja, que no final da monarquia dispunha de uma situação relativamente privilegiada, apesar de estar bastante subjugada ao Estado. E claro, assim que mudou o regime, os republicanos iniciaram a perseguição!

Papa Pio X (Pontíficado: 1903-1914).
Perante as duras leis da República Portuguesa
principalmente a Lei da Separação, o papa
faz um dos juízos mais duros da história na
sua Encíclica "Jandudum in Lusitania" ao
condenar as ações do Estado Português e
reiterando todo o apoio aos bispos portugueses.
A circulação desta Encíclica em Portugal
foi fortemente limitada pelo governo português.
E novamente acordaram os antigos fantasmas... Os novos decretos puseram em vigor as antigas leis de expulsão dos Jesuítas e do encerramento e extinção das Ordens Religiosas. Militares e muitos populares expulsam dos conventos os religiosos e excessos são cometidos no calor do momento. Muitos ao serem perseguidos não vêem outra solução se não fugirem para o Brasil. Saem decretos atrás de decretos com vista a combater o clericalismo, e alguns deles, obviamente, feriram de morte os sacerdotes, nomeadamente a abolição dos dias santos e das festas religiosas, a proibição de darem aulas ao ensino primário, a proibição dos juramentos religiosos e a gota de água para o conservador catolicismo, a possibilidade do divórcio! Muitas mais "machadadas" houveram como a lei de 18 de fevereiro de 1911 que criou o registo civil obrigatório, sendo todo o direito de registo retirado à Igreja. Isto para um Estado que queria ser laico, tudo bem, mas a maneira retorcida e humilhante como foi feita não seria tão boa! O novo regime estipulou que para a celebração religiosa de batismos, casamentos e funerais fosse obrigatoriamente apresentada uma certidão, que por sinal era bastante cara e muitas vezes dificultada de propósito pelos funcionários do novo registo civil. Havia até relatos de pessoas pobres que já não casavam pela igreja devido ao valor elevado do custo das certidões. E isto para Igreja era fatal, para não falar na ingerência do Estado nos assuntos internos e administrativos eclesiásticos. O golpe final é dado a 20 de abril de 1911 com a Lei de Separação do Estado das Igrejas, nacionalizando todos os bens eclesiásticos, condicionando o culto religioso, estabelecendo as "cultuais", organizações laicas que iriam gerir os bens da Igreja, e retirando os rendimentos aos sacerdotes, concedendo a jeito de humilhação e como forma de controle, uma pensão com condições muito restritas a quem a requeresse. Perante tudo isto o Papa Pio X condena veemente as atitudes republicanas, pois "despreza a Deus e repudia a profissão da fé católica".

Não será pois de estranhar que muitos padres se recusem a seguir as imposições e os novos rumos republicanos, passando ora a lutar na sombra ora a despir as batinas e a pegar em armas.
Alguns dos padres "revoltosos" que engrossaram as fileiras do exército realista de Paiva Couceiro.
Fotografia tirada no exílio, em Tui, Pontevedra, Galiza.
In Ilustração Portuguesa nº 337, 5 de agosto de 1912.
Padre Domingos Pereira.
Fotografia gentilmente cedida pela bisneta Fernanda
Paula Pereira.

E é aqui que entra o protagonista desta história, um padre que em 1911 já não o era, Domingos Pereira!

Mas recuemos uns bons anos atrás...

A 9 de agosto de 1862, às 9 horas da manhã, em Vilarinho de Negrões, freguesia de Negrões e concelho de Montalegre, nascia Domingos, filho dos lavradores António Pereira e Luísa Gonçalves Carreira. O seu padrinho foi o tio materno, João Albino Gonçalves Carreira, pároco de Refojos, em Cabeceiras de Basto. A longa tradição de haver vários sacerdotes na família materna ditou o destino de Domingos e do seu irmão Manuel, ao ingressarem no Seminário de Braga para seguirem a vida eclesiástica.

Em 1886, aos 24 anos, já era padre e por influência do tio foi para pároco de Outeiro, em Cabeceiras de Basto. O tio devia gostar de ter a família por perto, pois o irmão Manuel e José Maria também foram morar para lá. Manuel também se ordenou sacerdote e José Maria optou pela vida laica e tornou-se funcionário público.

Naquele tempo, não é que hoje em dia não aconteça, a religião misturava-se com a política, e o jovem padre Domingos era um fervoroso militante do partido Regenerador, um dos partidos do rotativismo da monarquia constitucional. Já o seu tio padre era da oposição, o partido Progressista... E este despique partidário não deu bons resultados! O tio tentou a toda a força que ele se tornasse militante do seu partido, pedindo até ajuda ao Arcebispo de Braga, D. Manuel Baptista da Cunha para o convencer. Mas a ameaça velada de o desterrar para a paróquia isolada de Lamares, em Vila Real não o fez vergar! Naquele momento o padre Domingos bate o pé e prefere deixar de ser padre, já que a vocação não seria muita, a trair os seus ideais terrenos. Venceu a política!
O padre Domingos Pereira, sentado ao centro, rodeado por amigos monárquicos, incluindo, do lado esquerdo, sentado e de luvas, o 2º Visconde de Paço de Nespereira e atrás, o primeiro do lado direito, Serafim Gomes de Paula Bastos, que veio a ser sogro do seu filho José de Sousa Pereira.
Fotografia gentilmente cedida pela bisneta Fernanda Paula Pereira.

Valentina da Conceição Sousa (1871-1954)
Fotografia gentilmente cedida pelo bisneto António Franco.
Com o cabeção e a batina de lado dedica-se ao ensino no Liceu da Cabeceiras de Basto, dando aulas de História, Geografia, Português e Latim. E como militante ativo do seu partido do coração assume lugares de Administrador do Concelho em Cabeceiras de Basto e Fafe, consoante o partido Regenerador estava no poder ou não!

E quebrados os votos sacerdotais, apesar de nunca os ter resignado oficialmente, são também quebrados os votos de celibato! O padre Domingos passa a viver maritalmente com Valentina da Conceição Sousa, natural de Pedraça, em Cabeceiras de Basto, e afilhada de Manuel Joaquim Rebelo de Sousa, bisavô do atual Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa. Aliás, segundo testemunho familiar, Valentina pertenceria também a esta família. Curiosas estas ligações indiretas e improváveis entre pessoas ligadas à Monarquia e à República! E sucedem-se os filhos... Bem, dois já eram nascidos desta relação, uma rapariga Clotilde e um rapaz, o José. Depois vieram mais duas raparigas, a Júlia e a Laura e dois rapazes, o Alberto e o Carlos.

Mas a calma da sua nova vida civil é quebrada com o implantação da República. Nunca poderia aceitar tal regime, era monárquico convicto e apesar de já não exercer o sacerdócio era crente e reconhecia os duros golpes que estavam a ser infligidos contra a Santa Religião. E assim tornou-se um dos muitos resistentes!

D. Miguel Januário de Bragança (1853-1927),
filho do rei D. Miguel I e pretendente ao trono.
A 30 de janeiro de 1912 é feito um acordo entre
as duas fações da família real, o rei D. Manuel
e o seu primo D. Miguel, no chamado Pacto de Dover,
em que D. Miguel reconhecia como legitimo rei
D. Manuel e este reconhecia o seu primo como herdeiro do trono.
No entanto as duas fações continuaram a não se entender,
resultando a 17 de abril de 1922 no Pacto de Paris ditando
que no caso do rei D. Manuel não ter filhos seria o herdeiro
natural o filho de D. Miguel, D. Duarte Nuno de Bragança,
pai do atual Duque de Bragança, D. Duarte Pio e pretendente
ao trono português.
As tentativas de repor a Monarquia começaram logo um ano depois, a 5 de outubro de 1911, com a 1ª incursão monárquica em Vinhais, cuja invasão através da Galiza das tropas realistas lideradas por Paiva Couceiro levou ao hastear da bandeira azul e branca. Mas tiveram de recuar e falhou a tentativa! Muitos foram os esforços para reunir apoiantes e lutadores da causa, e tiveram muitos, mas não os suficientes! Havia muitos padres e maioritariamente fidalgos da aristocracia, titulados ou não, que haviam perdido o seu suporte com a partida do rei. Os chamados "pinocas" de anel de brasão no dedo! E claro que o apoio do rei deposto era fundamental, mas nunca o foi dado declaradamente e muito menos incondicionalmente. Os monárquicos estavam divididos... E foram a Londres tentar um acordo com o rei exilado. Uma das condições para o consenso seria o impedimento do regresso da rainha-mãe D. Amélia, tida por alguns como uma influência nefasta para o rei. Claro que a reação de D. Manuel não podia ser outra... "Por este preço, nem todas as coroas do mundo!". E mais, havia os manuelistas, que apoiavam o rei D. Manuel e a havia os miguelistas que queriam que o novo rei fosse D. Miguel Januário de Bragança, um primo afastado descendente do ramo miguelista. Esta divisão levou Paiva Couceiro a combater com a bandeira monárquica sem a coroa, o que naturalmente não agradou ao rei D. Manuel.

Mas voltemos ao protagonista, o padre Domingos... A sua fama de resistente monárquico havia levado a que Paiva Couceiro, que ainda não o conhecia pessoalmente, o contactasse pedindo a sua colaboração com 400 homens para uma 2ª incursão que estava a ser preparada para o inicio de julho. O padre Domingos aceitou logo... Deveria comandar a invasão em Cabeceiras de Basto.

A ideia de Paiva Couceiro era tomar Valença e Chaves e esperar que a revolta se alastrasse como um rastilho por todo o norte, tido como monárquico, principalmente as zonas mais rurais que ao longo dos anos tinham estado debaixo do sagrado manto da Igreja devido à influência dos padres nas suas aldeias. A invasão passaria a fronteira por Vila Verde da Raia, visto que estavam exilados na Galiza. Tinham de avançar depressa pois o governo espanhol havia lhes dado um ultimato, ou avançavam com a revolta ou eram expulsos do país. Espanha tinha uma posição dúbia, por um lado apoiava os monárquicos portugueses, porque tinham como soberano um rei, Afonso XIII, e por outro queria ser neutra para não entrar em conflito diplomático com o novo governo republicano português.

João Augusto Mendonça Barreto,
Administrador do Concelho de
Cabeceiras de Basto.
In Ilustração Portuguesa nº 335,
22 julho de 1912.
Mas o padre Domingos precisava de treinar os seus homens, habituados unicamente a tiros de caçadeira. Como faria para explicar os tiros que se iam ouvir? Como mente brilhante que era lembrou-se de lançar a ideia de um concurso de tiro aos pombos, assim podia explicar o treino e os ruidosos tiros! O Administrador do Concelho, ingenuamente, havia logo concordado com a curiosa ideia que achava que ia trazer alguma vida social ao marasmo de Cabeceiras de Basto. Nunca lhe deve ter passado pela mais pequena ideia o que iria acontecer. Nem tão pouco ao Presidente da Câmara que decidiu viajar. Aliás a apreensão de armamento em Cabeceiras, no dia 5 de julho, não levantou suspeitas! Se calhar achavam que os pombos eram tantos...

Os padres da região uniram-se! O padre Domingos tinha o apoio dos párocos de Riodouro, o padre António Barroso Leite, de Painzela, o padre José Pina, e de Bucos, o abade Manuel Leite Araújo. Este último escondia até dezenas de espingardas Mauser atrás do altar-mor!

Em cima, os antigos Paços do Concelho de
Celorico de Basto, onde prenderam o
Administrador do Concelho. Ao centro, a
braçadeira usada pelos realistas, e a fotografia do
Administrador do Concelho. Em baixo, o verso
da bandeira monárquica, com uma estampa de
Nossa Senhora da Conceição, hasteada nos
  Paços do Concelho, pelas 10 horas e 15 minutos
da manhã do dia 6 de julho de 1912.
Clichés de Carlos Dá Mesquita.
In Ilustração Portuguesa nº 337, 5 agosto de 1912.
E após ter sabido que Paiva Couceiro iniciaria a invasão no dia 6 de julho, mandou no dia anterior oito dos seus homens cortar os fios do telégrafo e destruir algumas pontes. De madrugada ouviram-se tiros... O chefe do telégrafo havia dado conta. Pela manhã de sábado, dia 6 de julho começou o impensável! O Administrador tenta a todo o custo arranjar um carro que o levasse a Braga para avisar o sucedido, mas apenas conseguiu uma carroça puxada a cavalo, a chamada "vitória". Após vários contratempos na viagem, regressa ao final do dia com o guarda-fios para arranjar o telégrafo e alguns carbonários para fazerem frente aos monárquicos, que já haviam repelido a tiro o secretário das finanças municipal e as forças republicanas. Tiros são dados para o ar pelas tropas dos padres Domingos e José Pina, que se encontravam nos montes sobranceiros à vila, de modo a afugentar os carbonários e o Administrador que estavam na praça central, então chamada de Barjona de Freitas, hoje em dia conhecida como a Praça da República. Mais tiros são disparados e o Administrador é gravemente atingido. Foge para a casa mais próxima, do negociante José Teixeira Leite Bastos, mas não aguenta os ferimentos e morre.
A frente da bandeira monárquica hasteada nos Paços do
Concelho de Celorico de Basto.
In Ilustração Portuguesa nº 337, 5 de agosto de 1912.

Regimento de Infantaria 16 em frente ao Mosteiro de São Miguel de Refojos,
em Cabeceiras de Basto, julho de 1912.
In Reimaginar Guimarães, Coleção de Fotografia da Muralha.
A revolta alastra para os concelhos vizinhos... Entretanto em Celorico de Basto, o padre de Molares, Francisco de Almeida Barreto, manda tocar os sinos a rebate incitando a população a revoltar-se e a deter o Administrador do Concelho de Celorico, António Rodrigues Salgado. A bandeira monárquica é hasteada e por pouco o Administrador não é fuzilado! Enquanto isso, para animar o povo, sob um calor tórrido, a prima do padre distribuía uns bagaços pelos "revoltosos". Típico! O que interessa é animar a malta...

Finalmente no dia 7 de julho, num soalheiro e quente domingo, perante uma multidão o padre Domingos proclama a monarquia hasteando a real bandeira nos Paços do Concelho de Cabeceiras de Basto.
Grupo de sargentos, cabos e soldados de artilharia de montanha da "coluna
negra" com boca de fogo e munições, junto da Casa do Mosteiro, pertencente
à família do Barão de Basto. Cabeceiras de Basto, julho de 1912.
In Reimaginar Guimarães, Coleção de Fotografia da Muralha.

Durante 4 dias a vila esteve nas mãos dos padres "revoltosos" repelindo as tentativas das tropas republicanas para retomar o controlo do poder.
Em cima e ao centro, as casas do padre Domingos e irmão padre Manuel
destruídas pelos incêndios. Em baixo, à porta da cadeia, rodeados por
soldados republicanos, o padre José Pina, de Painzela e outros "revoltosos".
Cabeceiras de Basto, julho de 1912.
In Ilustração Portuguesa nº 336, 29 julho de 1912.

Mas quando o padre Domingos sabe do falhanço de Paiva Couceiro em Chaves e após Celorico de Basto e Fafe já terem sido tomadas pelos republicanos, decide abandonar a vila e refugiar-se nos montes vizinhos, na Borralha, em Salto, Montalegre. Ao saber que Paiva Couceiro havia recuado para a Galiza, manda dispersar as suas tropas. Quando os republicanos chegam a vila de Cabeceiras de Basto está deserta! As tropas republicanas dirigidas pelo comandante Sarsfield Cabral decidem ficar acampadas na praça.

Os soldados e alguns populares, como retaliação decidem incendiar a casa do padre Domingos e do irmão, o padre Manuel, no lugar da Raposeira. A mulher e os filhos ao verem as tropas a aproximarem-se fogem e escondem-se nos campos. Ao longe vêem as altas labaredas e os uivos desesperados dos seus cães a serem consumidos pelas chamas. Não houve clemência! A família escapou andado fugida durante dois dias e duas noites, dormindo ao relento onde calhava. Alberto, o filho mais novo do padre, tinha apenas um ano...

Mas os incendiários não pararam por aqui. Queimaram ainda a casa do secretário do padre Domingos, em S. Nicolau, a capela do cemitério e a casa de um comerciante que havia supostamente envenenado o vinho que as tropas republicanas beberam! Na verdade as tropas assaltaram a taberna, pois ninguém na vila lhes dava mantimentos, e eles "de língua de fora" devido ao bacalhau salgado das suas provisões, resolveram matar a sede na pipa que fora envenenada antes da sua chegada!

Tribunal Marcial de Cabeceiras de Basto, onde foram julgados
os "revoltosos" entre julho e setembro de 1912.
In Ilustração Portuguesa nº 338, 12 agosto de 1912.
O padre Domingos assistiu a tudo de perto, escondido com dez dos seus fiéis homens. Fica em Cabeceiras até às vésperas de Santiago, no dia 24 de julho, altura em que como tem a cabeça a prémio pela exorbitante quantia de 10 contos de réis, resolve fugir para a Galiza e juntar-se a Paiva Couceiro, onde finalmente o conhece pessoalmente.

Foram detidas 45 pessoas, alegadamente conspiradores e revoltosos. As casas dos simpatizantes monárquicos foram invadidas e destruído o mobiliário. Os conspiradores são levados a tribunal de guerra. O padre Domingos é julgado à revelia e condenado a 20 anos de prisão.

Partida do paquete Tucuman de Lisboa com destino ao Brasil.
Nele partiram o padre Domingos e mais 50 exilados.
Clichés de Joshua Benoliel.
In Ilustração Portuguesa nº 343, 16 de setembro de 1912.
Entretanto como Espanha, mais uma vez, não quer problemas com Portugal coloca entraves à permanência dos monárquicos portugueses. O padre Domingos decide assim partir para o Brasil juntamente com mais 50 exilados no dia 1 de setembro de 1912 no paquete Tucuman. Mas por lá não fica muito tempo e  regressa a Espanha.

Em 1919 dá-se a 3º incursão monárquica que levou à "Monarquia do Norte" proclamada a 19 de janeiro. O padre Domingos, como não podia deixar de ser, adere à revolta e ajuda a tomar Vila Real, hasteando a bandeira azul e branca a 25 de janeiro. Mas foi "sol de pouca dura" e falhou mais uma vez! Os monárquicos novamente fogem para a Galiza, incluindo o padre Domingos. E novamente é julgado à revelia e condenado a mais 20 anos de prisão.

Padre Domingos Pereira.
Fotografia gentilmente cedida pelo
bisneto António Franco.
Em 1925 regressa em segredo a Portugal e à sua querida Cabeceiras de Basto. Resolve juntar-se à família e viver o resto dos seus dias sem guerras nem revoltas, apenas queria paz. Nunca passou um dia na prisão apesar de lhe terem destinado 40 anos!

A 25 de novembro de 1945 morre em Cabeceiras de Basto. Segundo testemunho familiar, na sacristia do Mosteiro de São Miguel de Refojos vestiram-lhe a batina e colocaram-lhe o cabeção, e foi enterrado vestido de padre. Na verdade, oficialmente nunca resignou, e toda a vida foi chamado de "padre". Quis a família que assim fosse também na eternidade...

As tentativas para repor a Monarquia também elas morreram. O rei D. Manuel II nunca quis voltar por meio de um golpe militar, nunca quis que a Monarquia fosse restaurada pela força. O seu profundo amor por Portugal não permitia que fosse de outra maneira. Queria que o povo se manifestasse... Queria que Portugal o quisesse de novo...

"Portugueses, unam-se pela Pátria: sejamos fortes e mostremos ao mundo e àqueles que nos seguem atentamente com cobiça, que Portugal há-de renascer ainda, numa era de grandeza e prosperidade. Pensemos no País, sem outras ideias do que a que devemos ter sempre presente: Nascemos Portugueses, queremos reviver as glórias passadas, queremos levantar bem alto o nome de Portugal, queremos viver e morrer Portugueses!(...) Manuel Rei." 
Excerto da carta do rei D. Manuel II a Aires de Ornelas, 1919.

97 ANOS DEPOIS, NUNCA ESTAS PALAVRAS ESTIVERAM TÃO ATUAIS...

Gravação onde surge a família Real no exílio, nomeadamente D. Manuel II, a sua mãe a rainha D. Amélia, e a sua mulher D. Augusta Victória, durante uma entrega de prémios de uma corrida de carruagens em Richmond, Inglaterra.
Video da British Pathé, Richmond Royal Horse Show, 1920. In https://www.youtube.com/watch?v=vuaTG8b3N_k






Agradecimentos especiais:
Aos bisnetos do padre Domingos Pereira, Fernanda Paula Pereira e António Alberto Franco;
A Maria Fernanda Campos Carneiro, uma apaixonada sobre o assunto Incursões Monárquicas e Padre Domingos Pereira.